A vida invisível de Eurícidice Gusmão, de Martha Batalha - Resenha

Atualizado: Jan 30











Nem toda feiticeira é corcunda Nem toda brasileira é bunda Meu peito não é de silicone Sou mais macho que muito homem
Pagu, Rita Lee

Antes da história, Martha Batalha tinha uma hipótese que precisava investigar: o que aconteceria como uma mulher brilhante se ela vivesse em um lugar e tempo que não lhe permitisse realizar seus sonhos? Assim nasceu o irónico e cativante livro A vida invisível de Eurícide Gusmão, de 2016, traduzido para mais de uma dúzia de línguas. Recentemente, foi adaptado para o cinema por Karim Aïnouz que, entre tantas deliciosas surpresas, conta com a participação especial dos inesquecíveis olhos de Fernanda Montenegro - não à toa será a submissão do Brasil ao Oscar 2020.


Repleto de mulheres cariocas com nomes de vovó – Eurícide, Guida, Zélia, Filomena –, a narrativa se desenvolve nos primeiros sessenta anos do século XX, com foco especial entre 1940 à primeira metade dos anos 1960. Duas irmãs de classe média alta, filhas de pais conservadores portugueses, enfrentam por caminhos opostos os desafios e violências de uma sociedade profundamente patriarcal, machista, heteronormativa e, claro, segmentada por desigualdades de classe e de preconceito racial.


As várias referências e homenagens literárias ao longo do texto agradam a qualquer amante de letras. Esse intertexto é apenas a margem de um livro que se propõe democrático, pois as múltiplas sequências de frases curtas, irônicas e repletas de humor (negro?) criam uma composição accessível e prazerosa a diferentes públicos. A leitura do romance pode ser feita em uma única tarde, com a garantia de risos e reflexões sobre um Brasil que morreu apenas no calendário.





Estudiosos de literatura brasileira provavelmente reconhecerão no texto de Batalha diversas influências nacionais, como a elegância irônica machadiana e o mundo feminino de Clarice. Sim, precisamos voltar à Lispector ainda esse seja um lugar comum na crítica da literatura de mulheres e que Martha tenha deixado claro seu distanciamento consciente da autora que matou nossa estrela nordestina.


Tom, estilo e abordagem não são os mesmos de Clarice. No entanto, as mesmas solidão e epifania das mulheres brancas de Lispector estão latentes desde as primeiras linhas do livro de Batalha. Vemos a porofunda subjetividade daquelas mulheres que ao mesmo tempo são donas de casa, esposas, mães e escravas do sistema patriarcal.


Impossível não se lembrar de Ana, que a voz narrativa de Lispector, no conto “Amor”, explora o que acontece na alma e mente de uma mulher na “hora perigosa da tarde” quando, depois de terminar todas as tarefas domésticas, fica na expectativa de usar para valer suas capacidades. Assim como Ana de Clarice, Eurícide de Martha se pergunta, depois de cuidar da família:


“será que a vida é só isso? Existe vida além dos uniformes escolares, da memorização da tabuada e de todas as histórias da carochinha?” (22).

E como não pensar em Macabéa, quando ela descobre o poder da solidão pela primeira vez? Assim como ela, Eurícide demora, mas encontra a liberdade dentro de si, já que ninguém ao seu redor lhe romperia as algemas.


Ainda em 2020 há muitas Eurícide e netas de Eurícide que sobrevivem, das formas mais criativas possíveis, às micro e macro violências de gênero – muitas delas institucionalizadas na esfera pública e justificadas no ambiente doméstico. E talvez esse câncer patriarcal dos anos 1950, que insiste na sobrevida aliado à força narrativa de Batalha, seja uma das explicações do sucesso estrondoso desse livro e do impacto do filme. Aliás, a direção de Karim Aïnouz cria uma obra de arte ao mesmo tempo independente e atrelada ao texto original.





O longa de Aïnouz merece uma análise maior e individualizada, mas não poderia deixar de aparecer neste texto. As duas horas de filme são de uma beleza fotográfica em constante choque com um drama verossímil. A crítica ao machismo, o nome das personagens e algumas nuanças do livros estão sempre presentes, mas não apenas a abordagem muda, mas também o enredo.


Durante sua palestra na Pimarevra Literária em Indiana University, Martha Batalha disse que se seu livro é uma tragicomédia, o filme é um melodrama. O humor irônico de Martha está no longa-metragem, mas se trona muito trágico à medida que viver como mulher no Brasil parece ser impossível. E toda a tensão do filme, toda a frustação que percorrem as cento e oitenta e poucas páginas do livro, parecem culminar nos olhos de Fernanda Montenegro. Ela consegue captar aquele olhar que Eurícide conquistou após tantos anos de luta:


“o que incomodava nessa nova fase de Eurícide era o olhar: ela agora parecia entrar por dentro das pessoas, como se fosse roubar seus segredos” (97).

Seria por isso, então, que nas fotos clássicas de Clarice ela sempre aparece com aquele olhar que nos rasga o espírito?


Seja como for, A vida invisível de Eurícide Gusmão faz jus ao sobrenome da autora. Mulheres, ainda não vencemos a guerra, mas já conquistamos muitas batalhas.






Transcrição da minha entrevista com Martha Batalha: https://www.relendoaquieali.com/single-post/2020/02/19/Entrevista-com-Marta-Batalha





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