Macacos me mordam!!!

Atualizado: 20 de Fev de 2020


O planeta dos macacos foi inspirado em um livro? Em um livro francês? E aquele final impressionante do longa de 68 é diferente do desfecho original? Fiquei atordoada com tantas surpresas. Sou fã de carteirinha de todos os filmes, mas não sabia que tinham nascido da literatura.

Tanto o filme de 1968 quanto o de 2001 causam grande impacto por causa do fim da história. No primeiro, o astronauta (Charlton Heston) se desespera ao encontrar o símbolo de sua nação - a Estátua da Liberdade - naquele mundo povoado por macacos.

No longa de 2001 a angustia permanece: Mark Wahlberg perde o equilíbrio quando - pensando ter chegado em seu país, em seu tempo - encontra o busto do presidente Abraham Lincoln em formas símias.

A mesma impressão de absurdo está na obra de Pierre Boulle. Não há Estátua da Liberdade, nem um presidente macaco. Ainda assim ficamos de queixo caído ao ler o ultimo capitulo do livro.

Mas deixemos o grand finale para quem está lendo a obra e pensemos sobre sua estrutura.

Dividida em três partes, lemos a história a partir de três pontos vista: o do narrador em terceira pessoa, o do astronauta que entrou em contato com os macacos humanos e o do casal que está lendo a carta deixada pelo

Nos primeiros dois capítulos, tive a sensação de estar lendo Artur C. Clark. Isso porque uma realidade tão distante da minha pareceu verdadeira, possível de acontecer – sem contar a quantidade de poesia embutida na prosa.

Já nas linhas iniciais do romance, entramos em contato com uma era diferente, onde viagens espaciais são coisas do cotidiano: “Nessa época, as viagens interplanetárias eram comuns; os deslocamentos intersiderais, nem um pouco excepcionais”.

Em algum momento da viagem espacial, Jinn e Phyllis encontram uma garrafa vagando pelo espaço e começam a ler a carta que estava dentro dela. Nesse momento, há uma sobreposição de espaços narrativos: o do idealizador da história (Pierre Boulle), o de quem conta os momentos do casal na nave, o da perspectiva de quem escreveu a mensagem e, é claro, do casal que está lendo a carta. Carta que, diga-se de passagem, está sendo lida por pelo menos 3 leitores: Jinn, Phyllis e você. Interessante, não é mesmo?

Além de ser uma ótima história e uma boa sugestão de leitura para quem quer descansar a cabeça, o livro de Pierre Boulle provoca algumas reflexões. Durante toda a leitura, senti que o autor queria questionar e provocar nossa estrutura social. Gostei dessa postura, mas tenho minhas ressalvas. Em determinados pontos, percebi que a vontade de falar e criticar era tão grande que o romance acabou por se tornar esquematizado em momentos que poderiam ser mais artísticos. Trocando em miúdos: a literatura poderia ter sido mais forte do que crítica social ou a crítica poderia ter-se diluído na arte literária.

Por exemplo, ao invés de tecer longas explicações de porque o humor nos macacos e a falta de brilho no olhar dos humanos eram tão assustadores, Boulle poderia ter explorado literariamente esses momentos. A excessiva documentação não era necessária, afinal a própria inversão de valores – macacos humanos e humanos macacos – já é um abalo, um choque no leitor. Apesar desse pequeno deslize

Particularmente me senti em casa. Isso porque nas obras de ficção científica, em geral, tenho que fazer um esforço tremendo para compreender alguns preceitos da física. Nesse livro foi diferente. Precisei me lembrar das aulas de linguística e de psicologia do curso de Letras. Repensei sobre temas que tenho afinidade, como a aquisição da linguagem e o comportamento condicionado. Foi interessante ver o meu mundo de trabalho e pesquisa como a justificativa de uma ficção literária.

Costumo dizer que o livro e melhor do que o filme. Mas, nesse caso, houve empate.

Mesmo com mudanças substanciais nas adaptações para o cinema, o espirito da obra prevaleceu. O susto, o estranhamento, a reflexão sobre si mesmo, a noção de realidade e relatividade... tudo isso foi transposto para as Telonas.

E diria mais: a apropriação da história foi tão natural que facilmente pensamos ser O planeta dos macacos uma obra norte-americana, não francesa. Talvez essa seja a questão. A história é tão completa que a nacionalidade da obra não pode ser explicada por um adjetivo pátrio, mas por um mais abrangente. Assim, se o planeta é dos macacos, o livro é completamente humano.

Sobre a edição:

Linda demais para ter uma capa tão fininha!

Gosto muito das edições da Aleph. Só lamento que tanto capricho seja desperdiçado por um erro: o papel da capa e contracapa não aguentam muito tempo, são frágeis de mais para uma edição tão bonita.

Já o papel das páginas internas é ótimo: grosso, sem transparência e um pouco amarelado.

A edição nos presenteia com três artigos enriquecedores sobre ficção cientifica: uma entrevista com Pierre Boulle; uma reportagem da BBC News sobre o autor e um posfácio de Braulio Tavares sobre ficção cientifica e a proximidade que esse gênero fez entre os EUA e a Franca - tudo pensado a partir do livro O planeta dos macacos.

P.S:

Descobri que Pierre Boulle também foi o autor de um livro cuja adaptação para o cinema foi muito prestigiada: A ponte do rio Kwai.

Referências

PIERRE, Boulle. O planeta dos macacos. Tradução Andre Talles. São Paulo: Aleph, 2005.

Reportagem sobre a franquia O planeta dos macacos - veja aqui

Trailer de A ponte do rio Kwai - veja aqui

#ficçãocientífica

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