Anna Karenina: humanidade e força literária

Atualizado: 20 de Fev de 2020


“A obra de arte tem que captar o que há de humano na vida decadente em que vivemos”. Essa era a constante declaração da minha professora de realismo. Se assim for – e acredito que seja – Anna Karenina é uma obra prima.

O livro me cativou profundamente, não por causa do enredo, mas pela delicadeza no tratamento dos sentimentos humanos. Durante a leitura, percebi como a perda, a inveja, a paixão, a religiosidade e tantas outras idiossincrasias da vida humana (e aqui não exagero no léxico) dão forma à receita única de como fazer-se homem e, obviamente, mulher.

Tolstoi conseguiu exprimir as nuanças que se escondem na barra das convenções sociais. Organizou a vida e desenvolvimento dos personagens de forma que as centenas de páginas fossem necessárias para o clímax não do enredo, mas das contradições internas de cada personagem que dá forma à obra.

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Minha identificação com o livro foi imensa. Simpatizei-me com alguns personagens, vii meu reflexo em outros e me lembrei de situações que deixaram cicatrizes em minha vida. Desenvolvi uma relação de amor e ódio com os personagens, sobretudo com aquela que dá nome à obra: Anna Karenina.

Anna é uma das personagens mais fortes com que tive contato nesses poucos anos de caminhada pela literatura. E se me questionarem sobre seu fim, dizendo-me que estou errada porque ela se jogou nos trilhos de um trem, me tornaria sua advogada.

Se Anna deu fim à sua vida é porque estava doente. Se estava doente é porque enfrentou a sociedade com suas escolhas. E mais, enfrentou uma sociedade já repleta de vícios e enfermidades. Não digo que apoio suas escolhas nem tampouco afirmo que não poderia ser de outro jeito, mas Anna sabia das consequências de suas decisões e mesmo assim decidiu viver, pelo menos até quando sua mente ainda estava sã.

Discorrer sobre Anna é um desafio e não me atrevo a enfrentá-lo em tão poucas linhas. Mas enfatizo: ela possuía um quê a mais. Talvez isso só possa ser expresso, não definido, pela pintura encomendada por Vrónski. Mais do que mostrar a aparência esbelta de Anna, refletia seu olhar, seu estado de espírito, seu ser (ler capítulo XIII, da quinta parte e capítulo X, da sétima parte).

Tive alguns momentos de profunda emoção, mas vou cita-los rapidamente, afinal tenho medo de que minhas palavras não os expressem em sua plenitude:

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A morte do cavalo de Vrónski – além do meu eterno amor por Cavalos, a cena foi tão real que me senti ao lado dele

O dia do casamento de Kitty - tudo o que ela sentiu foi o que eu vivi dia 13/07/2013

O parto de Kitty e a reação de Lévin ao ver-se como pai - ainda não tenho filhos, mas o nascimento é algo mágico que me deixa perplexa

Os cuidados paliativos com o irmão de Lévin cujo fio da vida se afinava rapidamente - já acompanhei uma pessoa muito especial em estado terminal. Até hoje sinto o cheiro de sua casa, de seu leito

Os conflitos espirituais de Lévin - quem nunca passou por altos e baixos na fé?

E o caminho que conduziu Anna ao suicido.

Não se assustem com a extensão do romance nem com a por vezes formal escrita da narrativa. Pensem que durante semanas vocês terão a oportunidade de olhar para dentro de si por meio de uma obra literária.

Acredito que fui otimista de mais em relação à obra, e não me arrependo dessa postura. Quando li o resumo do livro e percebi que seria mais uma historia de adultério, fiquei desaminada.

Que bom que não deixei o livro empoeirar por essa primeira impressão.

SOBRE A EDIÇÃO

Em capa dura vermelha dentro de um caprichado Box, a edição da Editora Itatiaia está belíssima. O papel é um pouco fino, mas não atrapalha na leitura. Somente me incomodou o pouco espaço nas margens e entre as linhas. Isso, talvez, porque a obra é muito grande e foi preciso economizar no espaço. São 585 páginas de invasão russa!

OBS1:

Dois textos me ajudaram ter uma leitura crítica sobre a obra. O primeiro foi o capítulo “narrar ou descrever”, de Lukácks e o texto Eça de Queirós: O Primo Basílio, de Machado de Assis.

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OBS2:

Encontrei 3 adaptações para o cinema. A de 1997 é a que mais se aproxima do livro e os atores estão ótimos - ah, sou apaixonada pela música tema. A de 2012 tem uma forte pegada artística e procura revelar os sentimentos dos personagens, não a história literal. Vale a pena conferir!

P.S.:

“Todas as famílias felizes se parecem com as outras, cada família infeliz o é a seu modo”. Disseram-me que essa frase de abertura do livro está entre as mais célebres da Literatura. Não gosto desse tipo de valorações máximas, mas admito: esse pequeno período antecipa os fatos que acompanharão o leitor nas próximas semanas.

REFERÊNCIAS

TOLSTOI, Leon. Anna Karenina. Tradução Sérgio Lozar. Belo Horizonte, MG: Editora Itatiaia, 2007.

LUKÁCS, Gyorgy. Marxismo e teoria da literatura. Seleção, apresentação e tradução de Carlos Nelson Coutinho. 2 ed. São Paulo: Expressão Popular, 2010.

ASSIS, Machado. Eça de Queirós: O primo Basílio: Leia aqui

TRAILER do filme de 1997: Veja Aqui

TRAILER do filme de 2012: Veja Aqui

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