As Meninas: luta e literatura

Atualizado: 20 de Fev de 2020


Os conflitos desencadeados pela Ditadura militar no Brasil foram o estopim para o nascimento de quatro vozes femininas: a dócil Lorena, a ativista Lia, a conflituosa Ana Clara e a criadora de todas - Lygia Fagundes Telles.

Por meio do discurso indireto livre, os leitores entram nos pensamentos dessas jovens e criam um panorama do Brasil da década de 1970. Isso tudo ao acompanhar a caminhada de três meninas em cerca de dois dias divididos mais ou menos 300 páginas.

Entre a linguagem diferenciada e as inúmeras reflexões das personagens ,a obra As meninas mostra sua força por meio dos caminhos de vida de cada uma das jovens. Apesar de trajetórias opostas, elas têm muito em comum: compartilham um único espaço – o pensionato católico-, dividem os mesmos desafios de ser mulher em uma sociedade machista, além de enfrentar os próprios medos.

As três meninas de Lygia Fagundes são um recorte de possíveis personalidades femininas. Cada qual constrói sua realidade com referência à formação familiar (e nesse ponto a literatura invade o campo da psicanálise).

O acesso do leitor a essa realidade não corre pela voz soberana do narrador onisciente, antes, pelas próprias personagens. Depois de cada fala de uma das meninas, entramos em contato com as reflexões pessoais sobre aquele momento e com as digressões que cada uma faz da própria vida.

Assim como um filme direciona a olhar pelo plano da câmera, a narração da obra direciona a interpretação do leitor pelo fluxo de consciência de Lorena, Lia e Ana Clara.

Pode-se imaginar a personalidade e a aparência de cada uma por elementos subjetivos, como a autodescrição e o olhar de uma personagem sobre a outra. O narrador é apenas um condutor, é aquele que aparece, às vezes, para não “perder o fio da meada”.

Não há uma trama central. A obra retrata um curto período na vida dessas jovens, porém de extensão suficiente para repassar as questões que envolvem o sentimento de inferioridade da estudiosa Lorena, a complicada vida de uma garota revolucionária cujo apelido não poderia ser melhor – Lião – e a falta de perspectiva da linda Ana Clara, cuja saída é as drogas e um casamento burguês.

A preciosidade da obra pode ser atribuída a diversos fatores, entre eles à força da linguagem e à gama de temas abordados. Em minha opinião, contudo, a característica que permanece é outra. E para entender qual é, preciso destaccar o contexto histórico da obra e melembrar da biografia de Lygia.

A trajetória dessa escritora é de luta. Apenas como exemplo do duro caminho que percorreu, cito que o episódio em que sua mãe, ao ponderar que a filha estudava em uma universidade e publicaria um livro, disse que ela nunca se casaria.

Ao comparar a vida de Lygia com a das três personagens, me lembrei de que estavam inseridas em uma época conflituosa não só para a política, mas para o respeito e exercício dos direitos da mulher. Assim, conclui: a obra As meninasé um símbolo (e por que não um documento?) da emancipação feminina, porém com um qualitativo extra: é literário.

Sobre a edição

A edição da Companhia das Letras está belíssima! Bastante delicada desde a capa.

Apesar de ter mais de 300 páginas, o livro é leve e com margens abundantes.

Ao final, há o posfácio de Cristovão Tezza com uma interessante contextualização histórica da obra.

Meu conceito

Demorei um pouco a entender a dinâmica de leitura. Com o tempo consegui distinguir não só quem era a narradora (ou narrador), como cada uma das personagens apenas por reparar na construção sintática de cada uma dessas vozes.

A história nem de longe é tão complicada (repleta de núcleos narrativos) como as do Romantismo. O que se destaca na obra é o extremo cuidado qaue Lygia tem com a linguagem. - um prato cheio para os amantes da Língua.

P.s.:

Em 1995, o cinema realizou uma adaptação do filme. Adriana Esteves como Lorena, Drica Moraes como Lia e Cláudia Liz como Ana Clara, com direção de Emilano Ribeiro. Até o momento, vi apenas parte do filme, por isso escrevo pouco, comentando apenas que adaptar uma história tão voltada para a linguagem e com tantos narradores não é uma tarefa fácil, exigindo muitas mudanças na narrativa.

REFERÊNCIAS

LEAL, Virgínia Vasconcelos. Trajetórias femininas e ziguezagueantes – relações de gênero em As meninas, de Lygia Fagundes Teles. LEIA AQUI

TELLES, Lygia Fagundes. As meninas. São Paulo: Companhia das Letras, 2009.

Entrevista a Lygia Fagundes Telles no programa Roda Viva: VEJA AQUI

Depoimento de Lygia Fagundes Telles à editora Companhia das Letras: VEJA AQUI

#resenha #litrussa

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