O túnel que invadiu Maria e Capitu

Atualizado: 20 de Fev de 2020


El túnel pode ser lido em uma única sentada e com o coração preparado. À primeira vista, a pequena extensão me escondeu sua profundidade psicológica e filosófica. Confesso: a história foi cansativa, triste e pessimista, mas não consegui parar de lê-la, muito menos deixar de pensar sobre ela.

A escrita de Sábato é cativante e flui com muita tranquilidade. O incrível é que percebi essas características em um romance com fluxo de consciência – o que geralmente indica uma escrita confusa e cheia de apostos. Valeu a pena caminhar pelo escuro túnel de Juan Pablo Castel.

Assim como o jornalista usa a pirâmide invertida, o clímax da história é contado no primeiro parágrafo. O leitor já entende que nas próximas horas estará ao lado de um assassínio confesso, cujo crime foi matar o único amor de sua vida, Maria. Mesmo sabendo do desenlace da narrativa, a ela ficamos presos por não entender o que levou o narrador a isso.

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Conforme avançamos na leitura, fazemos várias hipóteses, como: “ele é uma pessoa doente, possessiva, pessimista e racional, por isso matou Maria". Mas o que teria feito Maria para desestabilizar tanto esse homem? A resposta está na hipótese da mente enferma de Castel. E é nesse ponto que me lembrei de Dom Casmurro, de Machado de Assis.

A história tem um cunho investigativo, pois o narrador tenta descobrir o que faz de Maria alguém tão interrogativa e atraente ao mesmo tempo. O problema é que a investigação dele, assim como a de Casmurro, só apresenta os fatos segundo a sua perspectiva.

Assim como o romance brasileiro, a novela argentina se apresenta em primeira pessoa. E mais: por uma primeira pessoa completamente perturbada.

Desde o início, Castel afirma que fará um relato isento de impressões pessoais, mas isso não acontece. Nenhuma investigação se dá assim.

Ao final da leitura, me fiz a mesma pergunta em relação a Capitu: Maria era ou não uma traidora?

Definitivamente, essa não é pergunta mais importante de nenhuma das obras, mas gera ansiedade e embeleza a narrativa. Gostaria de afirmar que Capitu e Maria são inocentes (estou quase 100% convencida), mas não posso.

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Tenho a sensação de que é a partir de mentes doentes, de alucinações e de sonhos que a humanidade tem construído sua história e revelando aspectos camuflados pelo o que conhecemos como “realidade” e “normalidade”.

Este livro estava guardado em minha estante há uns bons anos. Tirei-lhe o pó quando dois de meus alunos o escolheram para a prova oral de espanhol. Que bom que fizeram isso. Não sei por que não o tinha lido antes, mas acho que o li no momento certo de minha vida (sim, estou com olhar pessimista sobre a vida – não tanto quanto Castel, que fique claro!).

O que mais me incomodou não foi a desilusão de Castel para com a sociedade, afinal vejo isso todos os dias e a literatura usa bastante esse tema. Para mim, o pior foi a forma como ele matou Maria. Li em sala com meus alunos, mas não me atrevo a transcrever o trecho aqui.

Enfim, indico a leitura, mas advirto que é pesada. Se a estrutura narrativa é ótima, a desilusão e o desencanto são profundíssimos.

P.s.: dei uma rápida pesquisada e parece que há alguns filmes baseados neste livro. Não tive tempo de ver nenhum =(.

Sobre a edição:

Linda! Li no original em espanhol pela editora Cátedra Mil Letras. Além de uma linda capa em cor de ouro, tem uma jacket com a representação da pintura que uniu as vidas de Castel e Maria.

Para quem lê em espanhol, recomendo muito! Há notas de rodapé com a explicação de expressões argentinas. Também vão encontrar um prefácio grande (Introducción) sobre a vida e obra do escritor.

REFERÊNCIAS

SÁBATO, Ernesto. El túnel. Cátedra Mil Letras: 2009.

Artigo sobre o autor e suas obras (em espanhol): Leia Aqui

Vídeo resenha em espanhol: Veja Aqui

Vídeo resenha em espanhol (mais informal): Veja Aqui

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