Quando uma autobiografia se reveste de ficção

Atualizado: 20 de Fev de 2020


Quando li a palavra “periferia” no título do livro e a comparei com as atividades profissionais do autor[1], inferi que leria um típico relato de superação: o menino pobre que muda de vida por meio do esforço pessoal. Mero preconceito meu.

Percebi, logo nas primeiras páginas, que a proposta era maior. A palavra chave não é periferia, mas sim guia. Isso porque a narrativa faz um tour com o leitor pelas experiências que, na Cidade Maravilhosa, construíram a identidade de um morador da favela.

Guia afetivo da periferia é uma obra que ignora as tradicionais concepções de violência, pobreza (e por que não de pena?) com as quais se vê o subúrbio carioca.

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Os três capítulos referentes à movimentação de Faustini no Rio de Janeiro (“meu território”, “primeiros mapas” e “bússola”) adicionados às fotos em PB do arquivo pessoal do autor, conferem à obra um sentido ficcional. Marcus não vê a vida na periferia como algo perigoso - ele mesmo diz que só conheceu a palavra violência pela televisão.

Para ele, todas as experiências eram passíveis de um retrato literário: enquanto andava de ônibus imaginava como seria a vida de cada um dos passageiros; de sua casa via ‘o mais lindo pôr do sol do RJ’; bebia leite tipo C, comprava Coca-Cola apenas aos domingos e tinha por prato principal as sardinhas 88. Tudo isso não era motivo de tristeza ou vergonha - era uma rotina divertida.

A década de 1980 é o saudoso tempo da narração. A localização pode ser deduzida pela capa: Rio de Janeiro, sobretudo a periferia. E o personagem é o mesmo que escreve as memórias, porém nos seus anos de juventude. Na narrativa, a ordem cronológica não é obrigação; as lembranças sim.

Fautisni revela a própria visão da cidade, destacando situações importantes para a construção de sua formação. Entre elas sua relação com a literatura.

Nos deparamos com muitas citações de escritores e obras que influenciaram e faziam parte do cotidiano do autor/personagem. As inspirações literárias de Faustini, contudo, não eram assim tão originais, afinal ele sempre se lembrava dos cânones, como Tolstói, Trótsky, Joaquim Manuel de Macedo, Graciliano Ramos, entre outros. Quando Paulo Coelho aparece na narrativa, deixa claro que era a leitura de outro, não a dele.

O final da narrativa não é o tradicional desenlace de uma trama, mas um único parágrafo sobre a emoção do primeiro beijo. Ao fim da leitura, sentimos que a narrativa deveria continuar e, por isso, viramos a página aguardando qual seria a próxima imagem do guia de Faustini.

De leitura rápida e com toques humorísticos, as lembranças de Faustini não permitem o olhar da pena. Guia afetivo da periferia é a visão de alguém de dentro, não de um observador que se diz parcial, mas olha de cima para baixo.

Por meio do caprichoso projeto editorial, estamos diante uma obra original e que, como disse o autor em entrevista, “aposta na democracia, não no mercado”, afinal (re)constrói, gratuitamente, um Brasil desconhecido.

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Meu conceito + edição

Li esse livro para uma aula na UnB e a grande questão foi a classificação da obra. Se lerem a ficha catalográfica e o prefácio perceberão que apesar de se tratar de uma biografia, a obra é tida como ficção, crônica, memórias etc. Como não tenho meios para discutir isso, apenas digo que me diverti bastante durante a leitura!

E para os que conhecem a geografia do RJ a narrativa terá mais significado. O projeto editorial está lindo: as fotos receberam um bom tratamento, a borda das folhas é rosa como a capa, a fonte parece que foi datilografada e as 182 páginas aliadas ao estilo de Faustini permitem uma leitura rápida.

Apesar de esgotado para venda, pode ser lido online. Espero ler outras edições dessa coleção - Tramas Urbanas, patrocinada pela Petrobrás.

[1] Marcus Faustini é diretor teatral, cineasta e na época de publicação da obra era secretário da Cultura de Nova Iguaçu.

REFERÊNCIAS

FAUSTINI, Marcus Vinícius. Guia afetivo da periferia. Rio de Janeiro. Aeroplano, 2009. Leia Aqui

Entrevista com o autor: Leia Aqui

Resenha sobre a obra: Leia Aqui

Vídeo: Veja Aqui

#resenha #litbrasileira

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