Revivendo o passado para persuadir o presente

Atualizado: 20 de Fev de 2020


“Os homens tiveram todas as vantagens em relação a nós no que diz respeito a contar a sua versão da história (...) a pena sempre esteve em suas mãos” [1]

Em algum momento questionamos o porquê de determinadas escolhas e imaginamos como seria a vida se os conselhos - ou pelo menos alguns dos muitos recebidos na juventude - tivessem sido colocados em prática ou ignorados. É justamente esse o sentimento de Anne Elliot – a protagonista da última obra de Jane Austen, Persuasão.

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Em meio à crise financeira, à indiferença da família e ao excesso de culpa, Anne descobre que irá rever o único amor de sua vida, Frederick Wentworth. Isso não seria um problema se há oito anos ela não tivesse rompido com ele ao se deixar persuadir por Lady Russel - a grande amiga da família que se vê como sua mãe substituta.

Depois de tantos anos, a distância entre Frederick e Anna é imensa: ele já não é um jovem pobre cheio de aspirações, antes um bem sucedido membro da marinha inglesa em busca de uma esposa. Anne, ao contrário, continua sendo ignorada pela família e, por causa de tanto sofrimento, perdeu todo o “viço da juventude”. Mas há algo em comum entre os dois: ainda se amam.

Em alguns momentos a leitura se torna angustiante. Não é nada fácil imaginar o quanto o pai e a irmã mais velha não escutam (ou fingem não dar atenção) aos comentários de Anne. Ela é profundamente ignorada. Me coloquei em seu lugar e me senti péssima, pois deve ser terrível não ter voz nem poder controlar as rédeas da própria vida, ainda que se tenha potencial para tal empreitada.

Inevitavelmente comparei Persuasão com a minha obra preferida de Austen: Orgulho e Preconceito. As diferenças entre os personagens e o ritmo das narrativas são gritantes.

Se o romance entre Darcy e Elizabeth é leve, com toques de humor e cheio da delicadeza da primeira paixão, Anne e Frederick revivem um amor sofrido, se alimentam das recordações e experimentam uma relação amadurecida.

Voltar ao passado é um movimento comum na narrativa. Conhecemos os fatos através da memória e relatos dos personagens. Isso se torna ainda mais evidente quando percebemos que há um toque autobiográfico na história. É como se Jane, aos seus quarenta anos, estivesse olhando para seu passado pelos olhos reflexivos de Anne Eliot.

O contexto histórico é mais que um plano de fundo, pois interfere na vida de alguns personagens e, sutilmente, é o ponto de partida de algumas críticas da autora. Toda a história se desenvolve em meio às guerras napoleônicas e às ansiedades da sociedade burguesa da Inglaterra rural.

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Acredito que minha aproximação com a obra se deu por dois motivos: a força com que senti a dor de Anne e a o prazer proporcionado pela delicada escrita.

Quem está acostumado à pena de Austen não apenas sabe que a crítica social permeia bailes, bibliotecas, fofocas e casamento, mas conhece o desenlace do núcleo romântico.

Sim, as histórias de Jane sempre terminam em pizza! Mas isso não importa. Afinal, ela filtra os detalhes da vida sócia e consegue criticar dispensando a amargura.

Meu conceito

Particularmente, gostei muito da obra. No início me perdi nas personagens, afinal sou péssima com nomes em inglês e na obra há muitos sobrenomes!

Me emocionei em alguns momentos, mas não como em Orgulho e Preconceito. Fiquei incomodada com determinadas repetições de sentimentos, o que deixava a leitura lenta.

Apesar de não ter desenvolvido nenhuma admiração por Frederick, me identifiquei bastante com Anne e amei os comentários sensatos que fazia perante a família, ainda que poucas vezes conseguisse expressá-los ou ser ouvida.

Sobre a edição:

Dentro da bela ilustração em capa dura, encontramos uma biografia da autora e uma sucinta análise das três obras presentes na edição: Persuasão e as inéditas histórias publicadas em português, Lady Susan e Jack e Alice.

Há mais de 100 esclarecedoras notas de rodapé, além de um apêndice com a cronologia da vida e obra da escritora inglesa.

O capítulo 11 é interessantíssimo e está presente apenas nesta versão definitiva do romance. Nele Anne tem uma conversa feminista com o amigo de Frederick – tema que apesar de ser tão forte para a época foi abordado com a clássica sensibilidade de Jane Austen.

Vale a pena comprar (ou pegar emprestada) essa edição da Zahar!

Informações adiconais:

Encontrei duas adaptações de Persuasão para o cinema, mas não tive paciência para terminar nenhuma. A primeira tem uma narrativa muito lenta para os padrões atuais, enquanto os atores da segunda me foram indiferentes.

REFERÊNCIAS

Vídeo – resenha: Veja Aqui

Filme 2: Veja Aqui

#resenha #litinglesa

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