A filosofia em 500 páginas circulares

Atualizado: 20 de Fev de 2020


"Con alivio, con humillación, con terror, comprendió que él también era una apariencia, que otro estaba sonándolo"

Las Ruinas Circulares, Jorge Luis Borges.

Por que não li esse livro antes?

Desde o primeiro ano do ensino médio estudo filosofia, mas nunca tudo fez tanto sentindo como durante a leitura de O mundo de Sofia.

Valendo-se de um plano de fundo ficcional, a obra apresenta um panorama da história da filosofia, sobretudo a ocidental, para jovens e adultos. E o melhor: nem de longe a linguagem é tão complicada como a de alguns professores, mas é, antes de tudo, didática!

Até mais ou menos a metade do livro, tinha concluido que a história de Sofia era apenas um pretexto para Gaarder explicar a filosofia. Fui enganada. Ou melhor, caí numa armadilha.

A história de Sofia é uma grande metáfora para a explicação do que é a filosofia. E arriscaria dizer que o desfecho da história é uma verdadeira meta-metáfora – e assim, estou unindo à metalinguagem a metáfora . Foi muito confusa? Vou tentar me explicar melhor.

Ao avançarmos na leitura, entendemos que Sofia e seu professor, Alberto, são apenas personagens. Na verdade, nós, leitores, estamos acompanhando a leitura que Hilde está fazendo do livro "O mundo de Sofia", escrito por seu pai como presente de aniversário.

Mas as camadas de história não param por ai.

Não podemos nos esquecer que nós estamos diante de várias histórias: da história da vida de Hilde, da história de Hilde lendo o livro, da história do pai de Hilde escrevendo o livro e da história de Sofia com seu curso de filosofia.

Tudo bem até aqui? Continuemos, então.

O pai de Hilde conscientiza Sofia e Alberto de que eles são apenas frutos de sua imaginação e, logo, não existem de verdade. É neste momento que entra uma nova dimensão na história e ela é formada por nós, os leitores do livro físico, e pelo narrador que criou tudo isso.

A justificativa é simples.

Quando Sofia termina o curso, o livro escrito pelo pai de Hilde acaba. Então nós, leitores, começamos a ver o que está acontecendo na vida de Hilde depois que ela termina de ler O mundo de Sofia. Essa visão de fora só é possível graças ao narrador onisciente.

E há mais: ficamos sabendo que Sofia e Alberto conseguiram escapar do livro e fugiram para nosso mundo. Infelizmente os humanos não conseguem vê-los, afinal eles são entes eternos - tal como a chapeuzinho vermelho, Noé e outros tantos personagens literários. Sua existência depende da narrativa.

No nosso mundo eles não conseguem se personificar, apenas nos observam. Notem que eu disse “não conseguem”. Eu não disse “não podem”, pois isso não seria a postura de “um filósofo de verdade”.

Confuso? Não tanto quanto aparenta.

Na última folha da narrativa, Hilde e seu pai cogitam a possibilidade de Alberto e Sofia estarem por ali. Em alguma outra dimensão. De tanto refltirem, conseguem transpor aparentes barreiras.

Graças a toda essa ficção que dá vida ao livro disse há pouco que a obra pode ser entendida como uma meta-metáfora. Isso porque ao mesmo tempo que o livro é sobre filosofia, ele mesmo é um produto filosófico. E quem garante que nos também não somos história de um livro ainda maior que engloba toda essa história de Hilde, Sofia e Alberto?

O autor, Jostein Gaarder

Ainda queira desenvolver mais sobre a literalidade dessa obra, não posso agora. Isso faria deste post uma tese, não uma rápida discussão online.

Que tal continuarem a leitura comigo? Há, ainda, outras características interessantes para discutir.

Além de aprender e compreender muita coisa, tive algumas ideias para usar em sala de aula. Como o livro é didático, as explicações de Alberto são repletas de ilustrações, metáforas, encenações e métodos diferentes.

O dialogo é sempre muito presente e talvez seja por isso que não nos cansamos tanto. Não sei vocês, mas minhas aulas de filosofia eram expositivas, não dialogadas – imaginem só!

A obra não tem a pretensão de explicar tim tim por tim tim de cada filósofo. Ademais de pedantismo, seria impossível.

Antes, nos é oferecido um panorama da história da filosofia com base nas principais ideias de alguns filósofos. O objetivo é que, ao final da leitura, andemos com nossas próprias pernas.

O autor nos mostra o caminho, mas a caminhada é nossa.

O último capitulo faz referências ao espaço sideral. Não haveria melhor desfecho em curso de filosofia.

Ao pensar no Universo conseguimos ter uma mínima noção do quanto há para refletir. Entendemos que apesar de nos considerarmos um ser poderoso e pensante, somos apenas um grão de areia ao vento. A questão é que esse grão, por meio do pensamento filosófico, pode ultrapassar as fronteiras da via láctea.

Ao terminar o livro, me lembrei muito do conto “Las ruinas circulares” de Jorge Luís Borges.

Ali, lemos sobre alguém que planejava sonhar com um homem e de fato conseguiu. Foram 14 noites para que o criasse perfeitamente no sonho. O deus Fogo interveio e fez desse ser sonhado um ser “real”. Apenas o deus Fogo e o Sonhador saberiam que o homem era uma ilusão. Para os demais, ele seria tão real quanto qualquer outro homem.

Qual o problema, então?

Um dia, o Sonhador percebeu que seu “filho” estava prestes a descobrir que ele era uma ilusão, pois ao pisar no fogo e não se queimar perceberia que não é real. O sonhador, assim, tenta ocultar-lhe essa descoberta.

No intento de salvar seu “filho” ele mesmo atravessa um incêndio e, assustado, percebe que não se queima. Assim, “com alívio, com humilhação, com terror, compreendeu que ele também era uma aparência, que outro o estava sonhando”

E você, já conseguiu despertar do sono?

Edição + Meu conceito

Gostei bastante do capricho da Companhia das Letras. A capa na é dura, mas é resistente. As margens deixam a leitura confortável e a diferença de fontes nos ajuda a separar o mundo de Sofia do mundo de Hilde. O índice remissivo ajuda bastante. Pelo menos para mim...que farei desse livro de ficção um livro de consulta.

Foi o primeiro romance norueguês que li. Isso me parece relevante. Logo nos primeiros capítulos, Alberto explica para Sofia o que são os mitos. Então ele cita alguns exemplos gregos e termina mais ou menos assim: ‘não precisamos ir muito longe, Sofia. Podemos pensar nos mitos nórdicos.” Eu quase dei um pulo da cadeira! “Não precisa ir longe!?” Só depois caiu a ficha: Gaarder é norueguês. Alguns detalhes da cultura da Noruega nos sãos apresentados ao longo da história, como a comida, gírias, programas populares.... etc.

Um detalhe importante: a tradução é direta do norueguês!

Ah,

Sobre a primeira pergunta deste post:

Por que não li esse livro antes?

Tive essa sensação não ao final da narrativa, mas já no início quando entendi (finalmente) a teoria das ideias de Platão. Valeu muito a pena ler as mais de 500 páginas!

Referências

GAARDER, Jostein. O mundo de Sofia. Tradução de Leonardo Pinto Silva. 1 Ed. São Paulo: Companhia das Letras, 2012.

Livro Ficciones de Jorge Luis Borges: em espanhol leia aqui.

Em português leia aqui

Trailer do filme: veja aqui

Ótima vídeo resenha: veja aqui

#resenha #litnoruegesa

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