México, drogas e corrupção: una fiesta en la madriguera

Atualizado: 20 de Fev de 2020


Em Narcos, a história do traficante Pablo Escobar é narrada por um policial já experiente, cujas cicatrizes lhe permitem um vocabulário sujo, sem meias verdades. Nessa produção da Netflix, mergulhamos no mundo do narcotráfico, o que implica suborno, dinheiro e violência.

E se a série fosse narrada por uma criança? Se essa criança fosse um dos filhos de Pablo Escobar? Provavelmente, o resultado se assemelharia ao livro o Festa no covil (Fiesta en la madriguera), do mexicano Juan Pablo Villa-lobos.

Fiesta en la madriguera é para ser lido em uma única sentada. Com aproximadamente 100 páginas, a narrativa é muito fluida, afinal quem nos conta a história é Tochtli, um menino que imagino ter mais ou menos dez anos.

O livro se inicia sem pretensão. No primeiro parágrafo não há menção de violência ou drogas. Entramos em contato com o amor de Tochtli por chapéus (sombreros) e gradativamente nos deparamos com as pessoas que o rodeiam. O cenário do narcotráfico se constrói com delicadeza, ainda que salpicado por palavrões e sangue.

Além da cuidadosa composição, Fiesta en la Madriguera desvela profundos problemas sociais latino-americanos: pobreza, desigualdade, narcotráfico, corrupção -, além de se mostrar nacionalista pelo do tema e do nome dos personagens.

Órfão de mãe, Tochtli vive em uma fortaleza (ou um “castelo”, segundo ele), longe do centro urbano, sem qualquer contato com outras crianças – nem mesmo vai à escola, as aulas são particulares. Seu ciclo de amigos (“conhecidos” seria uma palavra mais apropriada), gira em torno de políticos, prostitutas, viciados e vigilantes com armas.

De fato, essa não é a melhor realidade para o desenvolvimento de uma criança. Talvez para camuflá–la Yolcaut mima anto o filho, construindo até mesmo um zoológico particular para o garoto, onde animais exóticos – como o hipopótamo anão da Libéria – tem presença garantida.

Ao mesmo tempo em que o compra tudo para Tochtli, Yolcaut se esforça em desenvolver um caráter machão no filho, proibindo-lhe, por exemplo, de chorar ou de usar o vocativo pai.

Quando uma criança conta uma história, em geral escutamos palavras repetidas, orações curtas, falta de vocabulário especifico e crítica, uma crítica muito diferente da dos adultos. Isso porque, em geral, as crianças não se dão conta que ao expor uma verdade, estão ressaltando problemas, ou seja, criticando. O detalhe é que, diferente "da gete grande", o fazem sem pretensão

E mais: por ser uma criança, o narrador se vale de expressões e palavras pejorativas, pois não percebe o quanto um léxico dessa categoria pode impactar nas relações interpessoais. Essa mistura entre a inocência do menino e a percepção do errado pelo leitor se repete no livro e o transforma em uma literatura que não faz questão de pausas.

Durante a leitura, pensei que encontraria apenas um salpicado de informações, onde o narrador, “sem querer querendo”, me contaria histórias desconexas, observações de seu cotidiano, mas o livro foi além. Os detalhes e personagens que rodeiam a vida de Tochtli compõe um cenário maior, originando uma superestrutura.

Para ser mais clara, mas sem spoilers, diria que ao final da leitura entendemos a força e poder do narcotráfico – como um mapa visto de longe. A compreensão se dá gradativamente, por meio do que os olhos de pelos olhos de Tochtli testemunham – uma criança que mesmo sem entender a gravidade da situação na qual está inseria e destinada, percebe que algo está fora do lugar.

Com um tema tão pesado, por que o título se inicia com “festa” (fiesta)? A resposta “é elementar, meu caro Watson”. Para decifrá-la, podemos pensar sobre duas palavras-chave do livro: narcotráfico e México. Yolcaut é conhecido como “o rei” (el rey) e como tal faz e desfaz o que quer e de quem quer.

O poder dele é tamanho que se assemelha àquela cena de Narcos onde Pablo Escobar consegue tanto, tanto dinheiro ilegal, que e decide enterrá-lo. Ou talvez ao celebre do mergulho do tio patinhas, onde a água não se compõe de H2O, mas de notas e mais notas e de dinheiro.

Ok. Festa no título se refere ao poder sem limites do narcotráfico, mas qual a relação com o México? Ora, se o estereótipo do brasileiro se resume no samba e na globeleza, o do mexicano se constrói pelo o canto dos mariachis e com o sentimentalismo das telenovelas. Outra festa. Uma festa no México. Uma festa no covil. Uma festa na “madriguera”.

Fiesta en la madriguera entrou para minha lista de indicações, principalmente para meus alunos de espanhol. Além de muito envolvente, a narrativa levanta questões para todos os que vivemos em solo latino-americano, sempre sob o alicerce de uma escrita simples, direta e inocente – não é à toa que Villalobos demorou dois anos para corrigir o texto!

Sobre a edição

Li no original e recomendo a todos os que dominam o espanhol que façam o mesmo. Infelizmente não li o livro físico (por causa do alto custo de livros importados, prefiro usar meu e-reader). A capa do livro em português esta lindíssima! Transmite muito do espírito festivo e da cultura mexicana.

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