Na sala de aula - 1º dia

Atualizado: 20 de Fev de 2020


Deu tudo certo!

Sábado passado entrei em uma máquina do tempo. Revi carinhas repletas de susto e sonhos; reencontrei o medo do vestibular, a vergonha da socialização, a angustia de questionar, as piadas internas enfim, cheguei a me ver com 17 anos novamente. Foi uma experiência incrível.

Graças a dedicação da nossa professora, fomos a Sobradinho juntos, em um ônibus que saiu da UnB às 8:15 da manhã. Todo mundo estava apreensivo, tirando as últimas dúvidas, repassado alguns detalhes.

Ao chegar na escola, os portões estavam trancados, com um monte de adolescente do lado de fora – alguns até maiores do que eu. Confesso: fiquei assustada, como iria controlar tanta gente? Controlar, não deveria ter pensado nesse verbo (socializar, interagir, seriam opções melhores), mas na hora do medo, me esqueci do Paulo Freire.

Fomos muito bem recebidos na sala dos professores. Tivemos direito a sorrisos amistosos, café quentinho e rosquinha. Como de costume, o primeiro dia foi confuso, tivemos alguns atrasos, mas nada que não pudesse ser compensado posteriormente. Formadas as duplas (ou os trios, como no meu caso), fomos para o lugar mais esperado desde o início do semestre.

Bom dia! Bom dia! Bom dia! Enquanto a Fernanda montava os equipamentos, a Carol e eu reposicionamos os alunos em roda, escrevemos algumas saudações no quadro e demos início as apresentações.

Assim que terminei, um imprevisto apareceu. Uma turma estava sem professor e precisei deixar dar socorro. Deixei minhas colegas com o coração partido, tínhamos preparado a aula passo a passo juntas...

Na outra turma, senti um clima diferente. Eu já estava apreensiva porque daria aula com uma colega que pouco tinha contato e logo de cara percebi que a turma era diferente da primeira, essa era bem mais agitada. Deveríamos ter começado a aula às 9h, mas por causa de todos esses problemas, só iniciamos às 10h!!!

Minha colega e eu estávamos sem sintonia. Temos ritmos de trabalho diferentes e havíamos pensado a aula por ângulos opostos. Não foi nada fácil tentar achar um meio termo assim, tão em cima da hora, mas demos nosso melhor. Tivemos que abortar muito do planejamento geral, omitindo ou reduzindo algumas atividades, mas conseguimos resultados positivos.

Os alunos têm entre 16 e 19 anos. Todos estão no último ano do Ensino Médio e estudam na mesma escola. Dos 25 alunos, apenas 3 gostam de ler, dois pensam em ser bombeiros e as aspirações de curso superior são bem variadas (medicina, jornalismo, psicologia, engenharia etc), mas ninguém quer ser professor.

Nessa aula, trabalhamos conceitos primários de interpretação de textos, analisamos poesias contidas no programa de avaliação do PAS e estudamos a organização de um texto crítico. Como todos os alunos de Estágio 2 tentam fazer aulas dialogadas (graças a Deus!), os alunos participaram bastante.

Particularmente, gostei muito dos momentos em que eles estavam trabalhando em grupos. Pude percorrer cada grupo e construir uma conversa mais particular, mais cuidadosa. Somente aí consegui memorizar alguns nomes, diagnosticar as dificuldades e potencialidades - o que me ajudou muito na continuação da aula e me ajudará no planejamento das próximas.

Depois das discussões em grupos, voltamos para a roda maior e os alunos compartilharam as conclusões. Também foi um momento interessante, pois motivamos o diálogo, trabalhamos a apresentação em público e sistematizamos conceitos.

Entre os muitos momentos gratificantes, um foi bastante especial. Estávamos interpretando a poesia O Plano, de Nicolas Behr:

o plano

pilatos

lava as mãos

e a sujeira

vai toda

pro Paranoá.

Durante a análise, a professora que estava comigo perguntou: “como vocês, quais brasilienses, se sentem com a realidade dessa poesia? ”. A resposta? Um longo silêncio seguido de palavras como “abandonado”, “excluído”. O que respondemos? E por acaso havia o que responder?

“Nem todos os silêncios precisam ser preenchidos, menos ainda aqueles que constituem o modo de ser de gêneros como o fantástico, o humor absurdo e a poesia” – Cecilia Bajour

Ao fazer um balanço, considero que o primeiro dia de aula foi positivo. Apesar de problemas como atraso, falta de professor, falta de material na escola, os alunos com fome (esse foi um sério problema. Às 10:30 já estavam reclamando e às 12h, então.... Ah, lembrando que o problema não é que eles reclamem, mas que eles estudem com fome) e da pouca sincronia entre minha colega e eu, posso dizer que #deutudocerto!

Quase ia me esquecendo: a escola 03 de Sobradinho é muito linda, bem organizada e limpa. E nas duas turmas que entrei, foi eu começar a falar... e a risada correr solta.

Os alunos se surpreenderam com meu r retroflexo, coisa que não acontece de jeito nenhum nas aulas de espanhol. Entrei na onda deles e fiz até piada, afinal era o primeiro encontro e na quarta aula trabalharemos com preconceito linguístico.

Estou apreensiva de novo. Não sei em qual turma vou ficar (seria ótimo ficar os 5 sábados com os mesmos alunos, pois além de criar vínculos, o trabalho com os alunos fica melhor). Amanhã será dia de “Vidas Secas”, o romance da minha vida, mas muito odiado por vários adolescentes .

(Ah, tomara que minha garganta melhore, porque ninguém merece dar aula com garganta inflamada.)

Reservamos os 15 minutos finais para uma avaliação do curso e para a apresentação de dois vídeos. O primeiro apresenta um programa de jovens em São Paulo declamam as próprias poesias nas ruas; no outro vemos a declamação de um dos poetas (os vídeos estão abaixo). Resultado? Assovios e aplausos.

Tivemos um feedback bastante positivo sobre o curso. Me lembro de dois comentários:

“Gostei do curso porque a gente pode se expressar,

a gente pode falar”

“Foi bem legal aprender sobre o Pilatos. Não sabia quem ele era. Pena que muitos políticos continuam a lavar as mãos”.

Pelo o que parece, ainda terei muitas surpresas com esses alunos.

Até a próxima!

Indico:

BAJOUR, Cecilia. Ouvir nas entrelinhas – o valor da escuta nas práticas de leitura. Tradução de Alexandre Morales. São Paulo: Editora Pulo do Gato, 2012.

#bastidores #saladeaula

  • Facebook
  • YouTube
  • Instagram