Na sala de aula - encontro 2

Atualizado: 20 de Fev de 2020


Foi bem mais tranquilo dessa vez!

Passado o desespero do primeiro dia, o planejamento e a aula em si fluíram sem tanto estrese, mas a ansiedade, é claro, estava presente. Dei aula com as colegas com as quais havia feito o planejamento, não houve atrasos e, apesar do data show não ter funcionado e da turma ter sido diferente da semana passada, gostei bastante da segunda aula.

A semana de planejamento foi bastante agitada. Tivemos que reler o “Vidas Secas”, do Graciliano Ramos, estudar a obra e adaptar a aula para a nossa realidade, afinal essa aula foi preparada por outra dupla da turma de Estágio. Eu estava com as expectativas altas para essa aula porque seria uma aula de literatura, minha área favorita de Letras. Além disso, as meninas e eu sabíamos que enfrentaríamos resistência dos alunos em relação ao livro do Graciliano e que poucos teriam lido o livro para o dia da aula.

A escola estava vazia porque muitos alunos tinham um simulado do Enem e, por causa disso, recebemos alunos de três escolas diferentes na nossa sala de aula. Como estávamos com aluno diferentes e alguns não estavam parentes na aula anterior, fizemos uma rápida revisão sobre a aula passada (sempre por meio de perguntas, para que os próprios alunos explicassem) e pedimos para que os alunos compartilhassem os textos produzidos em casa.

Não foi nada fácil convencer alguns a compartilhar as produções. Quando estava quase desistindo e partindo para próxima etapa do planejamento, a Fernanda apareceu com a pergunta ideal “alguém pode ler ao menos um parágrafo? ” E mais uma vez fiquei feliz por não estar sozinha na sala de aula.

Finalmente uma aluna compartilhou o texto. Enquanto ela lia, escrevi no quadro alguns pontos positivos do texto e depois pude elogiar o texto com propriedade. Acho que isso motivou os outros alunos, pois em seguida várias mãozinhas tímidas surgiram e ao menos seis alunos leram as produções de texto. Recebemos 14 produções, mas ainda esperamos receber mais nas próximas semanas.

Por fim, entramos com a análise e discussão do Vidas Secas. Como esperado, apenas sete alunos tinham lido o romance, apenas um disse que gostou “um pouco”. Dentre os que não leram, alguns já tinha ouvido falar, mas nunca se sentiram motivados a lê-lo. Fizemos então um rápido diagnóstico para saber por que não gostavam do romance, afinal isso nos ajudaria na condução da aula.

Os motivos:

Pontos Negativos:

1. Era um livro diferente

2. A escrita é seca

3. Os personagens falam de forma estranha

4. Tem muito sofrimento

5. A baleia morre

Questionamos, então, se não havia nada, nadinha de bom no livro. Com resistência, eles admitiram:

Pontos Positivos:

1. Tema

2. Humanização da Baleia

3. Animalização do homem

A partir dessas respostas e das preferências de leitura da turma (Percy Jacson / Trilogia dos 50 tons de cinza / outros best-sallers que não me lembro os nomes), percebemos que que alguns dos problemas eram a falta de costume com os clássicos, a ideia de que boa literatura é apenas a de entretenimento o incomodo de confrontar realidades. A partir daí, tentamos direcionar nossa aula para convencer ao menos um aluno resistente a ler o livro e para ajudar os que já o haviam lido a se mostrarem mais otimistas.

Com a ajuda dos sete alunos que tinham lido o livro, começamos a análise da obra. Para que a discussão não ficasse centrada nesses poucos alunos, elaboramos perguntas de cunho pessoal (em relação ao tema de “Vidas Secas”, é claro) e de interpretação de trechos do romance.

O objetivo da aula era trabalhar a relação entre linguagem e poder e nada melhor do que “Vidas Secas” para tratar do assunto. Um dos alunos (um que quer ser Juiz, gosta de ler atualmente está lendo a Constituição, mas ainda não havia lido “Vidas Secas”), ficou incomodando com o trecho em que Fabiano sente orgulho de ser mais bicho que homem. Ele nos perguntou o motivo, mas não respondemos! Nossas aulas são expositivo-dialogadas, então instigamos o próprio aluno a chegar a uma conclusão por meio da opinião dos demais colegas e de nossa direção para o próprio texto.

Depois do intervalo fizemos uma atividade em grupos menores. Na aula passada, mesmo estando em turmas diferentes, tanto eu quanto a Carol e a Fernanda tivemos o mesmo problema: panelhinhas. Tentamos enfrentar isso com o sorteio de grupos. Até que deu certo. Apenas um grupo se mostrou mais resistente, mais tímido.

Como disse no post passado, esse é meu momento favorito e tive doces surpresas com as discussões dos alunos. Na hora de compartilhar as conclusões de cada grupo, abordamos temas como o estilo literário do livro, a gramática de algumas expressões, a confusão entre os conceitos de “romance”, “novela”, “romance romântico”, a geografia da caatinga, o feminismo, enfim... foi um dos momentos mais produtivos do dia.

Nos trinta minutos finais, trabalhamos o conceito de artigo de opinião e reforçamos a necessidade de um esboço antes do texto final. Como proposta de texto pedimos que escrevessem em casa um artigo de opinião sobre a relação entre literatura e denúncia social.

Para mim, foi tudo ótimo! Minhas expectavas foram supridas e cinco alunos disseram que por causa da aula querem ler “Vidas Secas”. EBA!!!!!!

Acho que a próxima aula vai pegar fogo. Só para terem uma ideia, o texto base é o “Manifesto comunista”.

Até semana que vem!

#saladeaula #bastidores

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