Na sala de aula - 3º encontro

Atualizado: 20 de Fev de 2020


Todo mundo estava na expectativa. Essa aula prometia. Ia pegar fogo!

Somos da área do discurso, da linguagem, literatura e gramática. Justamente por isso estamos em todos os lugares, até na mais abstrata equação de matemática. Mesmo com essa consciência, não é nada fácil quando precisamos mergulhar em temas que que se distanciam do conteúdo estrito do Português, principalmente se o tema for polêmico.

Nesse dia, teríamos como texto motivador o Manifesto Comunista, falaríamos sobre “o homem primata” que consome sem limites e não está nem aí se é ou não da “geração coca-cola”. Estávamos apostando que essa aula seria conturbada, cheia de polarizações (basta olhar para o atual cenário político do país) e preconceitos. Tínhamos medo de ser tendenciosos de mais ao invés de incitar um discurso crítico. Bom, pelo menos eu estava assim.

Mas como nem toda teoria se comprova na prática, foi tudo bem mais tranquilo...

Para essa aula usamos uma diversidade de mídias: textos, charge, músicas e até um curta (a maioria dentro do programa do PAS). Inclusive, esse era um medo que a Fernanda e a Carol compartilhavam comigo. Será que trabalhar com tantos materiais não vai ficar confuso? A turma se mostrou muito consciente e reagiu bem a tudo o que apresentamos.

Algumas coisas, no entanto, fugiram do planejamento. Tivemos que terminar uma hora mais cedo porque naquele dia seria o vestibular da UnB. Pode parecer pouco, mas não foi, afinal esse seria o primeiro dia que os alunos fariam uma produção em sala, experimentando aquela clássica tensão de uma escrever um texto argumentativo com o tempo contado. Fazer o quê, né? Imprevistos acontecem... o texto fica pra casa!

Outra situação inusitada nesse dia: o ônibus chegou em cima da hora e quando entramos nas salas, os alunos já estavam acomodados, mas não à maneira das últimas aulas. Eles estavam em fileiras.

Odeio dar aula em fileiras. Provavelmente porque sou professora de idiomas e prefiro dar aula em círculo, pois aumenta o contato visual, e porque as melhores aulas na UnB são aquelas em círculos.

Para mim, as fileiras são repressoras, limitam a interação entre os alunos e entre eles e o professor, me lembram o mapeamento da escola (os professores me colocavam em lugares estratégicos. Já que eu era tímida e quase não tinha colegas, me enfiavam entre as panelinhas...me sentia péssima!)

Por algum motivo não modificamos a organização da sala. Admito: foi uma experiência interessante, não tão dolorida.

Já ia me esquecendo: como já havíamos feito duas correções de texto, iniciamos a aula apontando os problemas principais: concordância nominal/verbal, crase, tamanho/quantidade de parágrafos e desenvolvimento dos argumentos.

Mesmo sendo uma apaixonada confessa pela literatura, foi bem gostoso dar aula de gramática. A Fernanda e eu falamos juntas sobre esses tópicos. Tentamos fazer exposições dialogadas, de maneira que os alunos percebessem as próprias dificuldades. Foi muito bom! Todo mundo anotou, fez perguntas.. senti que eles queriam mais, mas... o tempo... para variar...

Infelizmente, a sala estava mais vazia. Talvez pelo vestibular (ou nossas aulas estão chatas mesmo?) – ainda temos mais duas semanas para conferir.

Conseguimos deixar um gancho para a próxima aula:

Está certo dizer: Os menino viero semana passada?

- Não! Está errado!

Se vocês escutassem alguém falando assim, o que vocês diriam?

Que ele está falando errado.

Então, você está em uma cidadezinha de minas, num restaurante simples, ganhou um café de cortesia e ainda iria corrigir o senhor que falou isso?

Silêncio.

Aí não. Mas ia corrigir na mente. Não é assim que se fala.

Não é assim que vocês falam. Já adianto a próxima aula: esse senhor não cometeu nenhum erro!

Susto geral!

Até o próximo post!

#saladeaula #bastidores

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