Mundo real

Atualizado: 20 de Fev de 2020


À primeira vista tudo parece glamoroso: estudar nos Estados Unidos, trabalhar em uma universidade americana, comer ovos com bacon a qualquer hora do dia. Sem dúvida é uma experiência única, repleta de descobertas e conquistas, mas também camufla desafios e frustrações.

Estou aqui em Bloomington há apenas duas semanas e já passei por altos e baixos, de maneira que conclui: os próximos dois anos não serão mamão com açúcar.

Iniciamos os preparativos em fevereiro, afinal dizem por aí que o planejado não sai caro. Bom, isso não foi 100% verdade no nosso caso. Organizamos nosso baixo orçamento, fizemos planos para cada um dos meses vividos aqui sem meu salário, compramos a passagem mais barata, alugamos um quarto em vez de um hotel... tudo como manda a etiqueta.

Para começar, nosso trajeto foi super longo: demoramos 30h para chegar aqui. Até que isso não foi ruim, pois amamos viajar. O primeiro problema foi outro. Quando chegamos na rodoviária de Columbus, Ohio, tivemos que pagar uma razoável quantidade por nossas bagagens. Pois é, tínhamos pesado as malas antes de despachar tudo no avião, mas nunca imaginamos que o ônibus interestadual limitava o peso, muito menos que fosse um peso menor que o permitido nas viagens aéreas. E lá se foi o dinheiro reservado para as próximas duas semanas.

E o ônibus não tinha nada a ver com as fotos anunciadas. Era velho, sujo, sem cinto de segurança... ainda bem que a paisagem e amizade que fiz com a venezuelana Mama Lucy compensaram.

Por fim chegamos a Indianapolis. Um casal muito simpático nos pegou na Universidade. Nos mostraram o mercado mais próximo, o shopping da vizinhança etc. Pensei que isso seria um bom pressagio, mas vi que estava errada assim que abriram a porta do lugar que alugamos. Que odor era aquele?! Tinha mais uma pessoa morando lá? Mas o acordo não era esse... e vamos dormir nesses lençóis sujos? É melhor nem mencionar o estado do banheiro e situação da cozinha... Não tínhamos carro, não havia ônibus e já passava da meia noite. Tudo o que queríamos era um banho quente e uma cama limpa, mas só no dia seguinte - talvez.​

(Vou gravar um vídeo explicando toda essa situação da moradia. Foi (está sendo) uma verdadeira odisseia. Tem sido um momento difícil e preciso alertar outras pessoas para não caírem nas mesmas armadilhas).

Bom, depois estraguei meu celular e gastamos mais uma grana para consertar. Como ele não voltou ao normal, compramos outro aparelho e mais dinheiro foi para o brejo. Também gastamos com comida para o café da manhã (estava incluso no aluguel, mas não recebemos o serviço) e compramos vários produtos e equipamentos de limpeza para poder deixar o apartamento pelo menos habitável.

Não vou entrar em detalhes, mas também tivemos imprevistos com a casa de câmbio, com a chuva, com compras caras (não, nem tudo aqui é barato) e novamente com o apartamento em que estávamos. Descobrimos que o condomínio não aceitava a sublocação e, por isso, precisaríamos deixar o apartamento em dois dias. Quase surtei!

Apesar dos pesares, tínhamos arrumado o lugar e pagado até o fim do mês de agosto. Agora teríamos que encontrar um lugar em tão pouco tempo e – adivinhem! – gastar mais dinheiro. #quevontadedechorar

Graças à boa comunicação entre os colegas do departamento, encontramos uma casa de família para alugar um quarto e nos mudamos ontem. A única desvantagem é que fica um pouco longe do campus, mas isso é fácil de resolver. Tudo aqui está limpo e a família é ótima.

Estou sentindo muita falta de ter um cantinho só meu, uma casa só nossa, afinal desde junho não temos aquela privacidade em que vivemos nos últimos quatro anos. Todo mundo me diz que isso é temporário, mas isso não me consola muito. Já vi que as aulas e o trabalho vão começar e eu ainda não vou ter minha casa, apartamento, whatever.

Ainda não mencionei a saudade que tenho dos meus pais e das minhas amigas, a falta da comida da minha mãe, a pouca noção de quando vou ver meus avós, tios e primos e a ausência da Janny, da Morena, do Tuca e da Kaloh (minhas cachorras e meus passarinhos).

Hoje fiquei melancólica o dia todo. O Joel me perguntou se eu não estou feliz. Não é isso. Estou estranhamente feliz, mas a frustação, o medo e cansaço me acompanham de perto. Será que só agora entrei na vida adulta? Se for, que ela seja bem-vinda, mas que não me roube os sorrisos.

#foradobrasil #bloomington #pessoal #intercâmbio

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