Se um artista é o pai da obra quem é a “Mãe!”?

Atualizado: 20 de Fev de 2020


E se as ideias fossem vivas? Se fossem pessoas ajudando o autor a construir a obra artística? Partindo dessa hipótese, nasce o filme Mother!, dirigido por Darren Aronofsky.

Já no trailer ficamos com aquela sensação de o que é isso, meu Deus!? E é justamente esse desconforto inicial que nos leva a pagar o ingresso e a pipoca cara do cinema.

À primeira vista, o filme sugere uma mistura de terror psicológico com mistério sobrenatural, tendo por base a relação entre um casal cuja diferença de idade é gritante e uma casa que, se não é mal-assombrada, guarda muitos segredos.

Com certeza você vai gostar bastante das duas horas que vai passar com a Jennifer Lawrence. Por isso, não estou aqui para contar o plot da história, mas uma possível interpretação que minha esposa e eu confabulamos depois da sessão. Vamos lá nessa viagem!

Ah, a partir desse ponto vou inundar o texto com spoilers.

(Dedico este post ao @jovemnerd e @Azaghal que,

depois do Nerd-Office de quarta-feira dia 13 de setembro,

me deixaram maluco para ver esse filme)

Para mim, o longa é uma grande metáfora sobre a dinâmica caótica entre o artista, as ideias, e a criação. Quais espectadores, acompanhamos a perspectiva da personagem de Lawrence, ouvindo o que ela escuta, vendo o que ela enxerga.

Vale ressaltar que tanto ela quanto seu esposo, Javier Bardem, não são representados com nomes próprios, reforçando a ideia dessa figura de linguagem que troca o particular pelo todo. Aliás, segundo o roteiro, ele é identificado como Him, ela como Mother.

Ela causa estranheza desde o início, mas isso se explica no último ato do filme quando entendemos que ela é um símbolo daquilo tão aspirado pelos artistas (cuja representação máxima é a do poeta): a inspiração. De suas entranhas, aparece um cristal brilhante e vivo que dá forma à obra artística - assim como Lawrence/Mother/Ideia/Musa dá acabamento à casa.

O artista tem relação conjugal (das mais tradicionais e patriarcais possíveis) com sua Inspiração/Ideia. E aí entra a casa, o espaço onde tudo acontece e se desenrola: a obra artística. Nela encontramos furos, falta de acabamento e, por que não, vida.

Como todo casamento que se preze, há o momento da crise. Him, Javier Bardem, sente que não está chegando a lugar nenhum no processo criativo e começa a convidar novas ideias para participar da trama, para entrar na casa, para modificar a obra.

A primeira a aparecer está fraca, prestes a falecer, representada por um homem idoso. O autor na busca de novas experiencias começa a passar mais tempo com essa recente ideia. Sua esposa fica incomodada com esse estranho que invade seu espaço privado, recebendo tanto cuidado e atenção do marido. Esse homem, ao se sentir à vontade, parte da obra, convida sua esposa para fazer parte do projeto.

E eles vão ficando... ficando... e ficam. Nem mesmo quando expulsos pela Mother saem da casa. A narrativa continua e o autor gasta mais tempo com essas ideias secundarias e descobre que elas geraram duas novas abstrações, representadas pelos filhos do casal de idosos.

O velho está morrendo e já deixou pronto um testamento para seus filhos. A questão é que um deles terá mais benefícios que outro, como se uma ideia tivesse mais importância ou poder dentro da obra que a outra. Esse conflito leva o inferior a matar o irmão. O artista ainda tenta salvar a vítima, mas era tarde demais.

Esse assassinato dentro da casa (obra) revela um furo, um problema, sequelas dentro da criação artística. A Ideia principal (Jennifer) tenta, sozinha, consertar aquele problema, mas ainda assim, ela sente que a obra está começando a morrer. Toda vez que vê a casa se definhando passa mal e toma um remedinho no banheiro. O que é o remédio? Não sei, hahaha. Mas o sangue da abstração morta abre uma nova porta na casa. Um novo ambiente representando uma fragilidade na produção que poderia pôr fim a tudo.

O artista continua a perseguir mais reflexões, afinal uma morreu e a outra se perdeu. Novos pensamentos vão surgindo simbolizados pelo velório do falecido. O artista as convida e faz com que se sintam em casa. Essas novas conjecturas começam a bagunçar e destruir tudo que a esposa, criou. Isso a incomoda profundamente.Essas pessoas novas tentam ter controle da casa.

Em várias tomadas elas perguntam à Mother: quem é você? O que você está fazendo aqui? A resposta de que ela é a dona da casa traz risadas e indiferenças. A Ideia, parece saber dos pontos fracos da composição (casa) e pede que outras ideias não se apoiem (pia da cozinha, por exemplo), já não são estruturas sólidas. Mas de nada adianta... o deboche continua e agora se comportam como uma criança mimada, saltando sobre a pia, até que, não apenas a pia, mas boa parte da casa fica destruída.

Vendo a falta de controle sobre seu paraíso, a Ideia principal “grita” com o poeta, já que esses novos residentes estão destruindo o trabalho deles. Ela precisa muito que seu marido passe mais tempo com ela. Ela quer carinho, intimidade, fecundação. Ela precisava dele, da casa e de mais nada. Só assim ela vai conseguir um filho.

Quando ela avisa que está gravida, o autor tem uma epifania. Finalmente estava crescendo algo em sua mente. Ele conseguiu fecundar a Ideia! Agora, precisava, como bom poeta, colocar no papel, tudo aquilo que crescia em sua mente. E ele escreve por toda a gestação como se estivesse também gerando o filho.

Ufa! Finalmente acaba. O esboço está ali, pronto para tenta cair nas mãos da Publisher. E aqui o nonsense começa a crescer. Por fim, a loucura estava tanta que eu já estava esperando ver um pickles falando “Hey Morty, I turn my self into a pickel. BUM! Big review. I`m PICKLE RIIIICK!”

Então, nos depararamos com cena muito estranha. A ligação afirmativa da Publisher, confirmando a publicação do livro, acontece ao mesmo tempo em que a esposa/Ideia está lendo o poema pela primeira vez, quando tinha acabado de sair do forno. Weird! Mas o interessante é como ela diz claramente e agora você vai me abandonar? Como se ela sentisse que não tivesse mais utilidade para ele agora.

Dai começam a surgir novas pessoas da maneira mais creepy possível, fazendo alusão ao surgimento de novos pensamentos a partir daquilo que ele escreveu. Cara, agora vem aquela sequencia COMPLETAMENTE MALUCA. Mais e mais pensamentos vão surgindo, aquela casa gigante fica pequena com tanta gente, e a mulher grávida no meio daquela zona, Cara!@#. Chega a ser muito angustiante.

Até que de novo as “pessoas” começam a destruir tudo a casa. Pausa para sustentação da hipótese, quando ela pergunta o porquê de estarem destruindo tudo, a resposta é: para saberem que estivemos aqui. Dessa enxurrada de novas ideias nasce o caos criativo. A obra é completamente danificada por esses novos insights. Algumas ideias novas não se importam nem um pouco com aquela ideia que ajudou a construir a casa que, mesmo gravida, é exprimida, empurrada e quase assassinada.

A Figura da Publisher aparece novamente e executa o que, na minha visão, são ideias sem valor, impublicáveis, já vencidas que não venderiam. O caos está tão grande que até a esposa vira alvo de execução da Publisher. Lembram que ela chama a esposa de Inspiração umas 3 vezes antes de tentar matá-la.

Outras conjecturas, ou pessoas, começam a tentar ajudar e proteger a esposa, até que o artista, o tal do Him, a reencontra no meio daquela bagunça. Ele consegue proteger a ideia principal pedindo para que até mesmo outras idealizações o ajudassem a sustentar e não deixar a concepção principal morrer. Por fim, o artista está sozinho com sua inspiração e ajuda seu filho a nascer. Filho que, para mim, parece ser o desfecho ou o clímax da expressão artística.

E nada como um dilema para trazer um pouco mais de tenção. O poeta quer mostrar o fruto dele para as outras ideias, porém Mother não aceita e quer que volte a ser tudo como antes: só o autor, ela e, agora, o produto dos dois construindo e reformando a casa. O Artista, no entanto, ama a admiração e adoração das outras pessoas e não quer mandá-las embora. Fast-foward.

Agora a cena mais chocante: o bebê vai passando de mão em mão até você ouvir o pescoço quebrar e sumir na multidão. Se não bastasse a morte do coitado, as ideias começam um ato de antropofagia. Elas querem que partes daquele fruto se fundissem aos seus seres, tornando-se parte delas. Essa cena me lembrou o filme Dragão Vermelho quando o cara come o quadro original para que agora aquilo fizesse, para sempre, parte dele. Da mesma fora que tribos canibais comiam seus inimigos para ficar com a essência ou a coragem, etc.

Quando a esposa tenta parar essa maluquice, as ideias secundarias tentam matá-la e (talvez) consumi-la (não fica claro no filme, mas suponho ser a sequência mais lógica) até que o poeta aparece e ordena que parem. A esposa sente que essas novas ideias mataram completamente a obra – já não ha coração, veias na casa. Como último ato, ela põe fim a toda obra, ateando fogo na casa.

O artista não a deixa morrer, mas percebe que a única coisa que ainda lhe resta a oferecer é uma nova inspiração para outra obra. Então acontece o plot twist: ele encontra o diamante da primeira cena.

Depois dessa maluquice toda, concluí que todo criador de conteúdo, seja ele de qualquer expressão artística, sabe como as ideias nascem, se desenvolvem e morrem, reencarnado em outro corpo. E que um projeto não acabado ou que falha origina um novo empreendimento.

Esse filme me fez pensar muito nisso. Pode ser que seja só uma maluquice minha ou do diretor. Mas uma coisa é certa: para escrever essa minha interpretação/teoria sobre esse filme tive que matar muitas Mothers!

PS: esse filme tem tanto detalhe que se eu fosse falar de tudo aqui daria umas 20 páginas e já achei e esse poste MUITO grande. Eu cheguei até a ter uma interpretação religiosa do filme onde várias coisas são assustadoramente similares à passagens bíblicas, mas vou guardar isso para conversas futuras.

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