Professores, a pesar de tudo

Atualizado: 2 de Jul de 2020


Hoje o dia é nosso. Parabéns, professores queridos!

Uma das delícias do dia 15 de outubro é poder dar salve, salve aos clichês: ser professor é a melhor profissão que existe, a educação pode mudar o mundo, sempre há um professor que mudou nossa vida e por aí vai. A gente evita falar dos salários baixos, dos abusos institucionais, da falta de motivação em certos dias, do pouco tempo de aula para tanto conteúdo. No dia dos professores, a gente pensa em agradecimento e motivação – duas coisas fundamentais para quem escolheu ser professor.

Todo outubro fico pensando em mil e uma coisas. Me lembro dos professores que influenciaram minha vida, do quanto sou privilegiada por pagar minhas contas com o trabalho que amo e de como é bom ter colegas e amigos que também são professores.

Quando estava no Brasil, sempre pensava na disparidade entre professores das grandes capitais e do interior, além da nítida diferença (condições de trabalho, objetivos de ensino e salário) entre professores de escolas particulares e públicas. Vivendo em Brasília, sabia que minhas chances de viver como professora eram muito maiores, ainda que trabalhasse em três escolas para ter uma vida confortável.

Estou nos Estados Unidos há três meses e já senti outro impacto. Novamente estou numa posição de prestígio, mas isso não me faz melhor nem me faz esquecer de meus colegas que lutam contra situações precárias e/ou injustas. Aqui em Bloomington já vi muitas pessoas reclamando do salário, da falta de apoio do governo, da comercialização do ensino particular e de muitas outras situações comuns no Brasil.

A questão é que, ainda assim, o ensino e a profissão-professor são melhores aqui. Professores e alunos são mais motivados, o salário é confortável, o local de trabalho ajuda. Ao mesmo tempo que essa nova realidade me inflame de alegria, fico angustiada. Será que um dia vamos realmente mudar o perfil do ensino brasileiro?

Espero que sim. Faço parte do grupo que ainda acredita na educação como chave para o sucesso de um povo. Pena que essa mudança vai demorar: cortes governamentais, demissões por falta de orçamento, escolas falidas, ginásios sucateados, professores ameaçados, alunos sem perspectivas, coordenações retrógadas.

Não está fácil. Não é fácil. E mesmo assim tem gente que escolhe ser professor, é mole? Seja por paixão ou ideologia, muitos lutam pelo diploma de licenciatura não porque querem um papel para enfeitar a parede ou para prestar um concurso, mas porque sabem que podem mudar o curso da história.

OK, não vou omitir: não pensamos em propósitos tão grandiosos assim o tempo todo. Também existe aquele lado valorização do ego. Ser professor é muito gostoso. Além de receber carinho da maioria dos alunos, sentimos que estamos fazendo alguma coisa de valor (ainda que sem nome definido), que nossa matéria é sempre a mais importante (especialmente se somos de humanas), nos sentimos pais de alguns alunos, psicólogos de outros e até chegamos a achar que somos indispensáveis.

Ainda não me arrependi de ser professora. Gosto de sonhar (para não dizer ter pesadelos) com minhas aulas, levar trabalho para casa, pensar num aluno durante a semana toda, ficar chateada quando não ligam para o que estou ensinado. Fico emocionada ao saber que sou importante para alguns de meus alunos e amo trabalhar com outros professores.

Também sou apaixonada por continuar sendo aluna. Gosto de fazer o típico: reclamar daquela aula, endeusar aquela professora, enviar um e-mail no domingo à tarde e achar que o professor é obrigado a responder, pedir que o trabalho seja adiado porque é muito complicado, ficar até tarde fazendo a tarefa daquele professor que acha que eu só tenho a matéria dele neste semestre e terminar o curso com a sensação de que foram as melhores aulas da minha vida.

Não haveria outro jeito de terminar esse texto: obrigada e parabéns, professores!

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