José de Alencar ainda vale a pena – Senhora em audiolivro

Atualizado: 2 de Jul de 2020


Um dos (poucos) desgostos de estudar literatura é que as histórias perdem sua magia. Depois das aulas da faculdade sobre teoria literária, do projeto de pesquisa sobre literatura contemporânea, da monografia sobre o mesmo tema e de um semestre de mestrado novamente sobre literatura, fico tentando decifrar cada sentença, cada silencio do narrador – que é diferente do autor, diga-se de passagem. Quero achar um simbolismo em cada escolha de palavras, pensar na representação da mulher em cada cena lida e por aí vai. Mas fazer o que? Ossos do ofício. Por mais que ame o que faço, não deixa de ser trabalho.

Nos últimos meses, encontrei um jeito de suavizar essa chatice que me acompanha: passei a ler/escutar áudio livros. Revivi em mim meu amor por histórias e narrativas. Quando criança, minha tia e meus avós sempre contavam historinhas pra mim, fosse antes de dormir ou por um capricho meu. Depois cresci um pouco. Tinha 14 anos e comecei a trabalhar como monitora de crianças. Qual era minha atividade preferida? Contar histórias. Talvez por causa disso, me senti tão confortável ao escutar alguém me contado uma história, dramatizando a leitura nos momentos certos e modulando a voz nos diálogos. Sem contar que é um jeito ótimo de otimizar o tempo durante caminhadas, limpeza da casa, preparação da marmita.

Hoje acabei de escutar Senhora, de José de Alencar. A escolha se deu porque tenho a lembrança de ler a primeira parte do livro quando adolescente sem nunca chegar ao final, apesar de vez por outra me lembrar da força de Aurélia Camargo. Segundo, as chances que José de Alencar esteja presente (em peso) na minha prova de mestrado são grandes.

Capa dp livro
Foi bom!

A voz que me acompanhou por quase 10 horas de áudio foi de Leni, uma carioca que soube transparecer tanto o processo de redenção de Fernando Seixas quanto a elegância do texto de Alencar. Aliás, com o áudio, consegui perceber muito mais o caráter artístico da narrativa. Para quem não se lembra, José de Alencar viveu no Brasil do século XIX, fazendo parte do movimento literário Romantismo. Foi um dos mais importantes autores, pois além de vasta obra, era muito engajado na vida política e um dos poucos a defender a liberdade linguística brasileira, ou seja, ele já tinha consciência que falávamos brasileiro, não português. Sempre que leio sobre a vida de Alencar, fico surpresa o quanto ele era contraditório, de maneira que não é possível dizer se ele era ou não abolicionista (sugiro a leitura do conto Māe). Biografia à parte, acredito que se em sua época era muito popular, especialmente depois da publicação de Iracema, hoje os alunos de ensino médio se assustam com sua linguagem, pois por ser rebuscada em excesso, recheada de adjetivos estranhos e com descrições exaustivas de ambientes, muitos alunos não tem um pingo de paciência. Se você é desses e se meu conselho vale de alguma coisa, tente dar mais uma chance, mas com áudio livro!

Ao escutar uma leitura treinada como a de Leni, as descrições ganharam outra cor e uma razão de estar ali. Eu, pelo menos, senti prazer ao imaginar a iluminação dos cômodos, o colo arfante da Aurélia apaixonada, o calor do Rio de Janeiro... Eu tive sensações. Foi muito agradável.

O livro Senhora é considerado um clássico. Um daqueles livros que além de patrimônio histórico, diz muito a quem lê e pode ser descascado, pois tem camadas e mais camadas. Por exemplo, pode ser lido no nível narrativo: uma jovem de órfã e pobre de 18 anos, aparece na sociedade do Rio de Janeiro como a mais rica e bonita. Como vingança, compra com um dote caro aquele homem que a trocara no passado por uma mulher mais rica. Depois do casamento, a vida do homem vira um inferno, pois aprende – da pior forma possível – o valor da dignidade de um homem.

Também pode ser lido sob a perspectiva feminista: todas as mulheres do livro são mais fortes e mais inteligentes que os homens. Aurélia diz-se senhora de si. No entanto, apesar de prometer muito, os olhos de Aurélia são submissos, as mulheres desdobram-se para que os homens tenham uma vida melhor, as donas de casa são “obrigadas” a cuidar da casa – ainda que tenham criados e mucamas –. Será que essas contradições são aceitáveis se pensamos que essa é uma obra de dois séculos passados? Será que naquele momento era o máximo de progresso que poderíamos esperar? Não se sabe. Fato é que as ações, qualidades/habilidades de Aurélia, de sua mãe e das irmãs e mãe de Fernando dão o que pensar sobre como nós, mulheres, vivemos hoje.

Ah, o nível marxista/capitalista é um dos mais legais: o dinheiro corrompe. O dinheiro compra muita coisa, mas não compra a dignidade. Para quem viu a novela da Record ou leu o livro, vai se lembrar como o dinheiro é uma personagem na obra. Apesar de todo esse discurso de degradação/coisificação do humano pelo dinheiro, vocês se lembram do final? Depois de que Fernando se vê liberto por pagar (com juros) a Aurélia o valor que ela lhe havia comprado, Fernando diz que, ainda se amando, não podem ficar juntos porque a riqueza os separa. O que o convence o contrário? Quando Aurélia lhe mostra o testamento – ele era o único herdeiro.

Haja paciência!

Bom, eu já estava aqui fazendo tudo o que faço nas aulas: desmembrando o livro. Vou parar, antes que canse a mim ou a você.

Deixo aqui minha dica: dê uma chance para o Alencar. Você vai se divertir e contribuir para a valorização da literatura nacional. Meus livros preferidos são Lucíola, Senhora e Iracema – nessa ordem. Também sugiro o aplicativo e site LivriVox, lá você vai encontrar áudios de livros no domínio público e, se quiser, pode se voluntariar!

Detalhe: contei o final, mas isso não vai estragar sua experiência.

Divirta-se.

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