O calor de “São Bernado”

Atualizado: 2 de Jul de 2020


Este é meu segundo inverno nos Estado Unidos. Tem sido bem melhor que o ano passado, sem dúvidas. Minha maior dificuldade nem é tanto o frio ou a neve (apesar de que está nevando pouco neste dezembro), mas a falta de luz. Escurece muito cedo e isso me deprime. Além disso, a maioria de meus amigos está viajando e a cidade anda deserta. Para me aquecer durante a noite, procuro o aconchego do colo dele. Durante o dia, o calor dos livros.

Tenho muitos livros para ler durante todo o inverno. Há 13 páginas de lista leituras (poesia, prosa e teatro) para cobrir antes da minha prova de qualificação de mestrado. Pois é, dia 8 de fevereiro vou enfrentar os famigerados exames - olho para trás e nem acredito que passou tão rápido (clichê, eu sei e não me importo).

Um dos livros da lista que apenas tinha ouvido a fama é “São Bernado”, de Graciliano Ramos, 1934. Li o livro em dois dias, mas facilmente conseguiria ter lido em um. Depois da leitura, o livro não quis sair de mim, nem eu dele. Não consegui esquecer o calor de São Bernado, o fim de Madalena e a complexa humanidade (?) do Paulo Onório. Talvez, para o leitor jovem e urbano de hoje, a linguagem seja, em alguns momentos, intransponível.

Para mim não foi assim. Isso porque o linguajar do livro é extremamente próximo ao dialeto que cresci ouvindo no interior de Minas. A história de Graciliano se passa em Alagoas, mas a cada linha eu me lembrava das férias no sítio dos meus avós, lá em algum lugar perdido perto do triângulo mineiro.

Casamento abusivo, machismo, anulação da mulher, religiosidade hipócrita, ganância desmedida e falta conexão com a família são alguns dos temas que percorrem o romance. Presenciei de perto tudo isso, das mais diversas formas, quando criança e adolescente, mas não sabia que essas questões eram um problema.

Capa do livro
Que leitura!

A Madalena do livro era loira, casou-se tarde (27 anos), era professora, escrevia para jornais, teve um filho. Minha avó se casou aos 16 anos, teve sete filhos e sempre trabalhou (muito) em casa e na lavoura. O que as une ao mesmo tempo as distancia. Ambas se anularam diante do parceiro abusivo, mas Madalena foi emagrecendo, chorando até não aguentar mais e tomar veneno. Minha avó, ainda bem, voltou a sorrir e a ser feliz quando, depois de mais de quarenta anos, divorciou-se de meu avô por circunstâncias que não compartilharei aqui.

Fato é que muitas mulheres ainda hoje tem o mesmo fim de Madalena. E para ser como ela, não é preciso morrer fisicamente. Se a mulher se cala porque não pode opinar, não pode interferir na vida do casal, tem de escutar ameaças verbais e é alvo de ciúme irracional, essa mulher está sendo psicologicamente torturada e, com isso, está (lentamente) morrendo.

Os temas abordados em “São Bernado” não são fáceis de acompanhar, mas há outro recurso estético que cativa – o ponto de vista narrativo. Quem narra a história é o próprio abusador, Paulo Onório. Diferente de Bentinho (“Dom Casmurro”, Machado de Assis), esse narrador é honesto, pois reconhece todos seus defeitos e limitações. Conta sua vida sem meias palavras nem sugestões. Ele nunca fez nenhum ato de altruísmo e as crueldades dele foram tantas que nem tenho vontade de numerá-las aqui.

Não tive empatia por ele, muito menos gostei dele. Apesar de tudo, há nele algo que ainda gostaria de ver em meu avô e em muitas pessoas por aí: reconhecimento e arrependimento dos erros. As últimas palavras de Paulo Onório são um golpe no estômago. Ele reconhece os erros, a culpa e enxerga que ele, e apenas ele, foi o culpado da “miséria” de sua vida. O livro acaba com Paulo Onório rodeado de insônia e solidão.

Fiquei pensando nele e no que acontece na vida de alguém que reconhece e aceita o sabor amargo da culpa. Talvez haja a possibilidade de perdão e de recomeço. Infelizmente, Paulo Onório não pode contar com o perdão de Madalena, por uma pura questão física. Ele ainda tem uma sobrevida de pelo menos uns 20, 30 anos e, logo, ainda tem tempo de perdoar-se, buscar o perdão e conseguir viver consigo mesmo.

Por que raios gostei tanto desse livro, já que foi uma leitura tão agreste? Primeiro porque veio-me a lembrança. Nunca fui ao sertão nordestino, mas percorri periodicamente as estradas empoeiradas e secas que abriam caminho para o sítio dos meus avós. Os mata-burros, a linguagem direta, o calor, a religiosidade, o machismo, o café preto depois do almoço. Segundo, veio-me a esperança. Vi em Paulo Onório a possibilidade de mudança. Será que até o mais conservador dos homens é capaz de olhar criticamente para si, para as (más) escolhas que fez e entender que isso tenha afetado negativamente as pessoas mais próximas de sua vida?

Quase não publiquei esse texto, porque achei bastante pessoal e pouco literário. Deve ser o efeito do inverno ou só meu ego querendo publicar um texto. Fato é que “São Bernado” me aqueceu e, diferente de “Vidas Secas”, deixou em mim um sentimento agridoce de esperança.

Temas e trechos para lembrar no dia 8 de fevereiro, na prova de mestrado:

1. Crítica do capitalismo (abuso, desigualdade, desumanização, utilitarismo – filho X herdeiro)

2. Capitalismo X Socialismo

3. Importância da educação

4.Meio seco e homem seco

5. Machismo

6. Linguagem direta

7. Coronelismo

8. Brasil rural

9. Ciúme

10. Adultério

11. Narrador honesto X Bentinho enganador

“Para diminuir a mortalidade e aumentar a produção, proibi a aguardente” (44)

“Escola! Que me importava que os outros soubessem ler ou fossem analfabetos? ” (48)

“A culpa foi minha, ou antes foi dessa vida agreste, que me deu uma alma agreste” (113)

“Mulher sem religião é horrível” (151)

“Não gosto de mulheres sabidas. Chamam-se intelectuais e são horríveis. Tenho visto algumas que recitam versos no teatro, fazem conferencias e conduzem o marido ou coisa que o valha. Falam bonito no palco, mas intimamente, com as cortinas cerradas, dizem: me auxilia, meu bem! ” (154)

“Mulheres, criaturas sensíveis, não devem meter-se em negócios de homem” (162)

“Se eu tivesse uma prova de que Madalena era inocente, dar-lhe-ia uma vida como ela nem imaginava (...) E se soubesse que me traía? Ah! Se soubesse que me traía, matava-a, abria-lhe a veia do pescoço, devagar, para o sangue correr o dia inteiro” (172)

“O que estou é velho. Cinquenta anos perdidos, cinquenta anos gastos sem objetivo, a maltratar-me e a maltratar os outros” (212)

“Estraguei a minha vida, estraguei-a estupidamente” (216)

“Nem ao menos tenho amizade com meu filho. Que miséria! ” (218)

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