Dois anos depois...

Atualizado: 2 de Jul de 2020


Mestre? Não me vejo assim, ainda que o papel insista no contrário.

Acabo de concluir mais uma volta do espiral da minha vida, ainda que a defesa da dissertação tenha sido progrorragada. Minha orientadora disse que já sabia que eu precisaria de mais tempo, mas eu custei aceitar que tinha limitações.

Mestres pensando na vida
E agora?

Aliás, acho que escolhi bem a palavra: a-ven-tu-ra. Concluir esse mestrado foi uma aventura fantástica na minha vida. Esses dois anos significaram muito mais do novas conexões literárias no meu cérebro. Fiquei sem o colo da mamãe pela primeira vez, não mais recorri a meu pai para ajuda finaceira, há quase dois anos não vejo meus avós, tios e primos, sofri a dor da perda, tenho lidado com rejeição, estou mais próxima dos 30 do que dos vinte (nunca pensei que seria possível, mas, como diz minha professora, isso é sinal de saúde), fiz alguns amigos incríveis, li muito, chorei, ri, engordei . . . a lista continua infindável. Talvez você me diga que eu simplesmente vivi. Concordo, mas pela primeira vez fui obrigada a crescer.

Com esse mestrado, mudei-me de país e arquei com todos os efeitos colateriais disso.

Acho que a maior parte foi difícil, mas nunca estive tão realizada como estou agora. Tenho medo de dizer isso e ser julgada. E sua família? Você se esqueceu dos seus avós? Você só está correndo atrás de bens materiais! Satanás vai boicotar seus planos! Você não se cansa de estudar? E é nessa linha que continuam os insultos que tenho escutado.

Sim, escutar tudo isso dói, ainda mais quado há um fundinho de verdade nessas acusações. Por isso, venho hoje tentar ser minha pórpria advogada – afinal, uma das coisas que mais tenho treinado nos últimos anos, é a arte da argumentação. Não quero te convencer de nada, apenas revindico meu silêncio tão antigo.

Estou feliz.

Não estou feliz porque minha fé está fragilizada. Não estou contente por estar longe da minha família. Não estou satisfeita com a maioria das minhas relações afetivas. Não estou de acordo com as inúmeras injustiças do meu trabalho. Não estou satisfeita com meu salário. Não suporto as políticas do novo governo brasileiro. Não gosto de ter depressão e ansiedade. Não! Não! E Não!

Há mais negações do que afirmações na minha vida. Há mais choros e raiva do que momentos de prazer. Mesmo assim, está valendo a pena.

Como diz meu cantor favorito, Jorge Drexler, é preciso amar mais a trama que o desenlace. A caminhada tem sido muito gostosa. O dinheiro faltou no summer passado. Fazer o que? Arregaçar as mangas e limpar casas, cozinhar para fora. A prova estava chegando. E agora? Encontrar um cantinho na biblioteca e mandar bala. Amigas se foram. Procurei novas. E a cada nova interrogação, uma nova odisseia. No fim, tudo vale a pena por causa da viagem.

Quase tudo deu errado. Por isso mesmo tem dado tão certo.

Se eu pudesse mudr alguma coisa nessa vida, gostaria que não fossem necessários tantos tapas na cara para aprender.

Finalmente comecei a crescer. Isso parecer esquisito para quem se casou aos 21 anosDeixe-me te contar uma coisa se você é um desses que pensam assim, deixe-me te relembrar de um detalhe: mesmo tendo 21, eu era uma criança!

Eu dei foi sorte. Joel e eu construímos uma vida belíssima juntos. Mesmo com os limões ressequidos que a vida foi nos presentando a cada um desses 10 anos, fizemos muito mais que uma limonada. Fizemos uma caipirinha delicisosa!

Seria impossível relembrar toda nossa trajetória aqui, mas quem nos conhece de verdade, sabe o que eu quero dizer. Né, Luma?

Chegar à conclusão desse mestrado me fez pensar em muita coisa. Religião, casamento, amigos, família, literatura, sala de aula, doenças, envelhecimento, casulaidades, solidão e morte.

Olhem bem para os livros que estou lendo no momento: “O dilema do porco espinho” (Leandro Karnal), “Por um fio” (Dráuzio Varela) e “Dom Quixote” (Miguel de Cervantes). Ou seja: solidão, morte e loucura. E sabe o que é mais esquisito? Estou sentindo um prazer enorme nessas leituras.

Clarice Lispector finalmente fez sentido. O “soco no estômago” (referência à “A hora da estrela”), foi diário. Nesse semestre, li o conto dela, “Amor”, umas cinco vezes. E tenho concluído que ela estava certa: a vida é tão linda porque é nojenta.

Uma das coisas lições mais valiosas que tenho aprendido nesses dois anos de mestrado é que estamos sozinhos. Eu já sabia disso, mas preferia ignorar.

Nossas relações afetivas apenas aliviam o caminho da solidão. No fim do dia e da vida, sou eu comigo própria.

Amigos, namorados, família, livros, amantes, maridos, esposas, colegas: sem vocês, essa vida não seria suportável. O problema é que nem a vocês podemos nos apegar. Vocês chegaram sem pedir licença e , na maiora das vezes, vão-se embora sem um beijo de adeus (ou “até logo”, dependendo da sua crença).

Vocês foram fundamentais para que eu concluisse meu mestrado. Obrigada.

Durate quarto meses, li mais 100 livros para os exames de qualificação. Viajei a diferentes séculos, países e culturas. Reli obras que marcaram minha adolescência e li obras que sempre quis ler mas nunca tive tempo.

No fim, não aprendi muito, desaprendi mais.

Despois dos exames, nunca mais tive paz para ler um livro.

Despois dos exames, senti-me (quase) bem.

Despois dos exames, tive medo. E agora?

Depois dos exames, começaram a me chamar de mestre/mestra.

Depois dos exames, acharam que eu tenho alguma coisa para contribuir.

Despois deste texto, algumas poucas pessoas vão se preocupar com meu estado de espírito.

Tranqulizem-se. Estou bem porque descobri qual é a “Terceira margem do rio” (referência ao conto de Guimarães Rosa). Não imito à Madame Bovary, porque acredito na metamorfose do “Espelho” ” (referência ao conto de Guimarães Rosa) e porque (estranhamente) amo viver, ler e amar. Ainda que a vida tenha roubado meus amores e a leitura já não seja tão ingênua.

Passei para Ph.D.

Provavelmente, os próximos anos abrirão novas feridas. Mas meu coro é grosso, meu sangue é brasileiro, meu coração é imenso e “quem quer passar além do Bojador Tem que passar além da dor” (Fernando Pessoa).

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