É hora de atravessar o Atlântico!

Atualizado: 2 de Jul de 2020


Há dez anos vivia aquela idade gostosa que antecipava a emacipação. O fim do ensino médio se aproximava, o vestibular de jornalismo estava chegando, estava quase oficializando um namoro e finalmente poderia aprender a dirigir. O mundo parecia cheio de possibilidade e de esperança. Se eu pudesse reviver algum momento do meu passado, escolheria, sem titubar, essa época dos 17 anos.

Como presente de graduação, papai me deu uma viagem de um mês entre Panamá e Costa Rica. Minha mãe me acompanharia de Brasília até São Paulo, amigos me esperariam no aeroporto e eu ficaria em casa de pessoas conhecidas. Apesar de todo esse suporte, eu estaria a maior parte do tempo sozinha, faria amigos por minha conta e experimentaria um pouquinho do sabor da liberdade. Foi a melhor experiência da minha vida!

Senti-me viva e independente como há muito não me sentia e como não me sentiria por muitos anos no futuro.

Uma semana antes dessa viagem, passava pela segunda dor de amor, pois a primeira foi aos meus 14 anos, com o Mr. S.P, mas aos 17 doeu mais. Isso porque eu estava naquele ponto de encontro entre as expectativas de mulher e os sonhos de menina, entende?

Mr. T.S.L ficou assustado quando minha tia ligou pra ele, toda brava, culpando-o pelo meu péssimo estado (choros constantes, insônia, palpitação, falta de apetite, , irritabilidade, pessimo... essas coisas). O coitado do moço não tinha me prometido nada, mas só a susgestão foi suficiente para meu coração que desabrochava. Minha tia falou tanta coisa para ele que até hoje o moço não consegue olhar pra mim!

(Ms. T.S.L, nós dois já nos superamos, querido! Não precisa fugir!)

Hoje, olho pra trás e só tenho vontade de rir e abraçar a Laís de 17 anos. Tadinha. Era algo tão pequeno, mas para ela o mundo estava desmoronando. Se eu pudesse, falaria para ela o que minha amiga Luma vive me dizendo aqui: “respira. Beba água e tá tudo bem! Tá tudo bem!”.

No dia da viagem ao Panamá, minha outra tia, a Diera (sou cheia de tias intensas), me ligou e disse “pare de chorar. Coloque uma maquiagem e siga em frente”. Fiz isso e dali em diante tive uma experiencia melhor do que a outra.

Estou lembrando disso tudo porque em 4 dias o espiral da minha vida estará paralelo à Laís de 10 atrás. Viajo quarta-feira para Portugal e Espanha. Estarei sozinha, com pouco dinheiro no bolso e um com um coração atrapalhado.

Tudo aconteceu tão rápido! A notícia do trabalho na Espanha veio primeiro, Portugal surgiu há duas semanas. E só de pensar que quase não me arrisquei a solicitiar essas viagens por medo. Miro esse emprego na Espanha há dois anos, mas neste ano tiha decidido não me aplicar porque minhas chances eram minúsculas e eu não estava bem para uma rejeição. Se não fosse pelo chacoalhar de incentivo do Joel, eu não teria me aplicado no último dia e teria perdido a chance de ralizar um sonho antigo. Como ele costuma me dizer “o não já temos, só falta a humilhação”.

Vou ficar em Ciudad Real, na região de La Mancha. Assim, além de refazer os caminhos do meu cavaleiro andande preferido, vou mergulhar em todas as nuances língua que mais amo depois da minha nativa. Lá, serei professora de literatura, coordenadora financeira e professora de teatro. Vou viver em grupo pela primeira vez, pois estarei na mesma casa que outros três professores, e vou experimentar a ausência do português, do meu companheiro e de mim mesma.

Agora, quando penso em Portugal, meu peito dá mais pulinhos ainda. Lá, ficarei apenas 10 dias. Consegui um financiamento da Indiana University para pesqusiar os arquivos da Biblioteca Nacional e da Torre do Tombo. Livros e cupins serão meus amigos das 9 às 5 da tarde. Depois, Lisboa vai ser minha. Quero experimentar cada cantinho, perder-me em alguma ruela, comer um patel de belém quentinho, escutar fado, dançar, conhecer pessoas novas, tomar um café no mesmo banco do Fernando Pessoa, sentir o cherio de Lisboa que li no “Memorial do Convento” (Saramago), fechar os olhos e chorar como o velho do Restelo no porto de Belém (referência “Os Lusíadas”, de Camões). Lisboa, sou toda sua! Chego de braços abertos e com um coração latente.

Estou colocando expectativas altíssimas nessa viagem e acho que é um tiro certeiro. Eu sei, por experiência própria, que viagens longas mudam alguma coisa dentro do viajante. Às vezes, quem viaja encontra uma parte de si que estava perdida; outras vezes, cria uma versão completamente nova de si mesmo. Espero ambos. Quero um reecontro com a Laís de 10 anos atrás, aquela Laís tão sonhadora e energética. Mas também quero reiventar a Laís que se aproxima dos 30, mas que deixou-se perder no emaranhado de complicações da vida. Preciso fazer com que minha projeção (mulher independente, forte e discplinada) se aproxime mais da realidade. Já não dá mais para ficar com Laís medrosa, infantil e ingênua.

Nesses últimos dez anos, mantive o pior da Laís de 17 e me esqueci do mais lindo que ela poderia me dar. Talvez porque não soube lidar com o retorno, talvez porque tive medo de quem poderia me tornar ou talvez eu fui uma pessoa normal que, infleizmente, aprende a viver apenas ao se aproximar da casa dos 30.

Seja como for, estou realizando dois sonhos e isso já é algo imenso por si só! Agora, só me resta empacotar as malas e não cruzar os dedos, pois não quero sorte – quero vida, somente.

Viajar! Perder países! Ser outro constantemente, Por a alma não ter raízes De viver de ver somente! Não pertencer nem a mim! Ir em frente, ir a seguir A ausência de ter um fim, E a ânsia de o conseguir! Viajar assim é viagem. Mas faço-o sem ter de meu Mais que o sonho da passagem. O resto é só terra e céu

(Fernando Pessoa)

Viajar de avião
Tô chegando, Europa!

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