A saudade (não é só) portuguesa, pá!

Atualizado: 2 de Jul de 2020


Papai sempre se gabava: “saudade era a palavra mais linda da nossa língua, afinal só existe no português”. Nenhum outro idioma podia expressar todas as nuanças de sau-da-de. Havia tanta emoção em uma palavra tão curta.... Para papai, saudade expressa sofrimento, amor, melancolia. Tudo ao mesmo tempo. Assim, sentir, ou ter saudade, é ir de um extremo a outro em segundos. Será por isso que o brasileiro é tão intenso?

Talvez minha paixão pela língua e narrativas literárias tenham começado a brotar aí, no constante escutar dessa história.

E não é que escutei a mesma anedota na primeira noite em Lisboa? Rui, o recepcionista do hostel, arfava o peito para se gabar dessa palavra. Para ele, não há povo mais intenso nem mais romântico que o português. O português, segundo ele, sofre, chora e ri ao mesmo tempo. Por isso, saudade não poderia ser de outra nação. Tinha que ser dos portugueses.

Todas as noites, enquanto preparava a janta no hostel, batia o maior papo com o Rui. Acho que gostei tanto de conversar com ele porque percebi nele algumas características do meu pai, como o exagero, o romantismo exacerbado e a tão repetida história da saudade.

Papai defendia que saudade era algo da língua portuguesa, especialmente do povo brasileiro. Já o Rui, enfatizava que era algo do povo português.

Nenhum dos dois percebeu que, na verdade, essa palavra não tem dono, muito menos nacionalidade. No entanto, talvez, quem sabe, sim, o povo lusófono a tenha mais à flor da pele do que povos asiáticos ou europeus orientais. No fim das contas, isso pouco importa. Saudade existe como substantivo, entidade e sentimento. E, para ter posse dela, só existe um requisito: é preciso que a pessoa tenha história, memórias – e isso, todos nós temos em certa medida.

***

Ao chegar no aeroporto de Lisboa, o senhor da alfandega me deu aquele “bom dia” cheio de sotaque português e meu coração bateu mais forte. A partir dali... entrei numa montanha russa de saudade. Ser atendida na minha língua, encontrar brasileiros em todo cantinho e comer tapioca só contribuíram para aumentar a saudade de casa. Da casa que, mesmo sabendo que não é minha há tempos, insisto em manter o pronome possessivo. Mas, entenda, por favor, que não estou pedindo pena, afinal foi dolorosamente agradável. Senti-me viva, com raízes férteis e grandes.

Recorri muitas ruelas e bairros de Lisboa. Vi roupas no varal (não em secadoras), escutei o sussurro da língua camoniana nos restaurantes e comi tão bem quanto no Brasil – ah, aquele bacalhau do Brás da dona Fátima! Mas como nem tudo é perfeito, não gostei do café. Pelo o que entendi, na Europa só se consome café expresso. Tudo que eu queria era um gole do bom e velho café coado que a mamãe sempre fazia depois do almoço.

Conhecer Belém e Sintra foi uma experiência avassaladora. Uma verdadeira viagem no tempo. Sintra foi o lugar mais romântico que já vi até hoje (tá, vi poucos lugares lindos na minha vida, mas mesmo assim...). Senti tanta vontade de ter ao meu lado aquele que por dez anos compartilhou os momentos mais lindos, tristes e dramáticos da minha vida. Quem sabe um dia a gente ainda vai estar de mãos cruzadas, recostados no parapeito do terraço do palácio, olhando aquela paisagem e ventanias de tirar o folego...

(Ele sabe que essa música é pra ele...)

Belém é menos impressionante e menos imponente que Sintra, mas foi lá que existi e epifaniei-me – permitam-me o neologismo. Quando cheguei perto da Torre de Belém, encontrei uma ponte – e sou perdidamente encantada por pontes. Atravessei-a, cheguei num bairro quietinho, com casas coloridas e muitos varais. Virei à esquerda, atravessei rua e cheguei numa rotatória pequena com grama verdinha. Quando me posicione na direção que tinha percorrido, vi a Torre de Belém dentro de um frame digno de cartão postal.

Uma linha de árvores com flores em lilás abriria o caminho para deixar a Torre bem no meio. Não sei se foi porque descobri esse lugar sozinha, se porque foi uma imagem muito linda, mas lembrar desse momento tem me ajudado a dormir nas noites de ansiedade intensa, quando nem o remédio me apaga.

No monastério dos Jerônimos que a mágica aconteceu. Sentei-me em um cantinho do pátio, num chão sujo, de pedra antiga. Ali fiquei parada um longo tempo. Nada de fotos ou vídeos. Apenas uma contemplação triste.

Estava sentada em um lugar de fé. Justo eu, na confusa condição espiritual em que estou.

Entrar em igrejas (ou qualquer templo religioso) me dá náuseas. No entanto, sentar ali, em frente ao jardim, me fez puxar o caderninho e escrever. Enquanto isso, chorava baixinho e aproveitava aquele momento de solidão que há tempos não experimentava.

Saudade

Havia muita gente, mas eu era uma das poucas pessoas sem companhia. Será que mais alguém tinha chegado em Portugal sem ninguém para encontrá-los no aeroporto? Alguma coisa aconteceu comigo ali no mosteiro... mas sinto que já estou me desviando muito do foco desse texto... falarei da solidão em outro momento, pois é ela minha companheira fiel nesta viagem. Agora é a hora da saudade.

Retomando.

Lisboa é lugar mais atraente que já vi em toda minha vida. A noite nunca tem fim e há jovens, adultos e idosos, de todas as partes do mundo, por todos os lados. Todos se misturam e fazem da cidade um caldo em ebulição. Além do fato de Lisboa exala o cheiro da história.

Lá, não dormia. Claro, há que levar em conta que no meu quarto do hostel havia 6 pessoas, cada uma abrindo a porta numa hora diferente, com de roncos esporádicos e chamadas telefônicas altas e em fora de hora.

Apesar disso, meu objetivo final era aproveitar cada segundo... Durante o dia, na Biblioteca Nacional, eu era a Dr. Laís Lara Vanin, de Indiana University. Nas noites, eu uma adolescente mochileira. Numa dessas noites, a georgiana com nome italiano, Nona, que dormia em frente ao meu beliche, me mostrou a cidade. Ela, como muitos estrangeiros, tinha sido flechada pelo cupido, apaixonando-se por Portugal. Ela conhecia Lisboa como a palma da mão e me mostrou diversos segredos ocultos de cada bairro.

Crush (>

Agora uma digressão, porque gosto de virgulas e parênteses:

(Ah, que saudade do bairro alto... em uma das noites que saí sozinha, encontrei um bar minúsculo, fechado, com a janela aberta. Pendurei-me na janela, inclinada por aquela rua de paralelepípedo e, entre taças de vinho tinto em esvaziamento, vi uma performance de fado. Não cresci apreciando fado, mas, por alguma razão misteriosa, senti que era aquela tradição também era minha. Teria sido isso uma memória de DNA perdido? Foi quase tão emocionante como quando escuto o batuque da capoeira.)

Retomando.

Nona nasceu 15 verões antes de mim. Isso não impediu que, na nossa última noite juntas no hostel, fóssemos à terraça, abríssemos um vinho e fizéssemos votos de solidariedade feminina, entre confissões e risadas. Se não fosse pela Nona, não teria rido tanto, muito menos teria visto a Lisboa desconhecida pelos turísticos. Em uma das nossas saídas noturnas, procuramos um lugar cabo-verdiano para dançar, pois para aquele dia, queríamos ritmos africanos, como Kizomba, uma de nossas paixões compartilhadas. Fomos para esse lugar pitoresco (e caro) no Cais do Sodré chamado Beleza.

Lá, encontrei não apenas outra variedade do português, mas uma língua crioula chamada “badiu”.

Não apenas os nativos da ilha preferiam essa íngua, como também o grupo que tocava ao vivo. E certas músicas em badiu faziam muitos entrarem em êxtase. E não era para menos. Pelo o que entendi, ao conversar com caboverdiano, soube que o grupo que tocava era muito popular em Cabo Verde, mas por motivos migratórios estavam separados há anos e aquele era um reencontro histórico. E estavam contatando apenas músicas icônicas, clássicas e antigas. Me bateu um orgulho de ver aquele pessoal reunido. Imigrantes que encontraram um lugar pacífico e acolhedor na terra que antes os colonizava. E ali, podiam libertar-se não apenas os sentimentos reprimidos, mas até da língua colonizadora – pois ainda que a soubessem, ela não era necessária.

Além de ter sido uma delícia dançar na companhia da Nona, foi ainda mais prazeroso ver o rosto contraído de quem dançava e cantava. Dava para ver que era um momento de conexão cultural. Você sabe como ficamos fora de nós quando escutamos aquela música antiga que marcou uma década na nossa vida? Eles estavam assim. Em meio a tanta euforia, houve uma música melancólica. Todo mundo virou em direção ao palco, alguns com a mão no peito esquerdo enquanto cantavam uma canção chorosa... não entedia a letra (afinal estava em badiu), mas entendia que eles tinham saudade.

Tocaram muitos estilos africanos para além do único que Nona e eu conhecíamos, mas isso não foi barreira. Meus quadris e pés simplesmente iam na batida... só pode ser memória de DNA... será que a família do meu vô pretinho era de Cabo Verde? Saudade de passar as tardes na varanda dele, tomando sacolé, naquele calor infernal de Igarapava...

***

Mas não há memória biológica que ganhe a batalha da tradição. Nada se compara ao que eu senti quando fui ao Titanic, também no Cais do Sodré, para dançar forró. Dancei quase que sem descanso. Cantava e dançava como uma desvairada.

(Em Bloomington, tinha um companheiro fiel de forró, mas ele foi embora. Brincava sempre com ele que, além de perder um amigo e chefe, pedia meu forrozeiro favorito. Saudade, Marcos.)

Pois é, eu não poderia imaginar que dançaria tanto e que me faria tão bem. Esse dia foi hilário... acabei caindo na besteira de gravar um stories mostrando que estava um pouquinho bêbada e sozinha na noite. Isso deu o que falar... pelo menos eu aprendi a lição... mania que eu tenho de querer compartilhar tudo da minha vida... seria isso sinal de narcisismo ou imaturidade emocional? Fato é que dei material de graça pra fofoca... mas sobre esse ocorrido também vou abordar em detalhes no texto futuro sobre a solidão. (se bem que devem ter falado tanto da minha ousadia porque estão com saudades, não é mesmo?). Enfim: dancei por todas minhas amigas brasileiras de Bloomington, por todo meu passado e pelo porvir. Dancei com saudade.

***

No último dia em Lisboa, estava exausta. Cólica, sono, cólica de novo e chuva. Era muita chuva contra minha sombrinha roxa minúscula. Além de achar demasiado incômodo, tenho medo (quase pavor) de chuva. E aquele dia, no fim da tarde, a chuva tinha me pagado de jeito. Quer saber? Não vou cozinhar hoje, não. Vou comer algo na padaria.

Outro parêntese:

(Não há padaria nos Estados Unidos. Imaginem a minha alegria brasileira quando percebi que do lado do hostel havia duas padarias deliciosas!)

Pedi uma sopa quentinha, umas sardinhas frescas, salada e vinho tinto – obviamente. A sopa tinha sabor de mamãe. E foi eu falar isso para o garçom, com os olhos meio molhados, que ele pediu para o pessoal da coizinha aquilo que até então sótinha ecutado no Brasil: caprichem no segundo prato da moca e deixem que ela escolha qualquer sobremesa que desejar. Pronto, bateu saudade do meu país, dos meus conterrâneos e da minha mamãe... que vontade de ir ao Brasil e dar um abraço nela.

***

No dia seguinte, fui à casa de uma amiga que conheci em Bloomington, a Rita Luz. E o sobrenome dela já diz tudo. Ela e família iluminaram minha vida.

Foi um fim de semana perfeito. Acolheram-me como irmã, sobrinha, filha e neta. Foi uma delícia sentir aquele calor familiar que há quase dois anos não tenho. Obrigada, Rita! Não vou esquecer das nossas conversas, do seu cuidado comigo, das danças com você e com sua mãe enquanto seu pai cantava, do bacalhau do Brás da dona Fátima, da hospitalidade, dos cafés... e a lista poderia continuar, mas não quero revelar para os leitores certos momentos que foram só nossos. Obrigada, amiga inesperada!

***

Saí de Portugal confiante e com energias recarregadas. Segue pungente em mim a vontade de voltar e de explorar mais, pois reviver esses dez dias não vai ser possível. Esse gostinho de quero mais impossível também faz parte da saudade. Em Portugal, senti saudade da minha família, do meu país e do próprio Portugal.

Esse foi o maior texto do blog e, ainda assim, não falei nem de um terço do que lá vivi, senti e descobri. Mas, a essa altura, nem eu quero mais escrever e nem você quer ler mais...

***

Na Biblioteca Nacional, pesquisei sobre Gonçalves Crespo, um poeta luso-brasileiro que viveu apenas 37 anos. Sua obra quase não é estudada, pois além de pequena, não impressiona tanto. Apesar disso, há muito o que escrever sobre esse poeta que, em uma carta-confissão a Machado de Assis, disse conviver com o peso de ser negro em uma sociedade europeia.

Em Lisboa, pesquisei sobre a vida e obra um poeta que tinha muito para dizer, mas pouco tempo nessa terra, muitas vezes inóspita e injusta. Deixou filhos, esposa e amigos. Li sobre ele em dez dias e tentei viver por mim e por ele em dez noites.

Não sei quanto tempo de vida tenho, se tão longa como meu vô Pretinho ou tão pequena como a de Crespo.

Seja como for, tenho que encontrar um jeito de deixar uma marca de saudade nesse mundo. Não sou poeta como Crespo, nem tenho filhos como meu bisavô. Tenho que pensar qual vai ser minha estratégia. E, claro, que meus próximos dias sejam cheios de saudade e de lembranças dessa que foi minha melhor aventura até agora.

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