Amarelinha

Atualizado: 2 de Jul de 2020


Ah, se eu pudesse voltar à Lisboa!

Queria me perder de novo no Bairro Alto, deitar na beira do Tejo, comer o bacalhau do Brás da dona Fátima e (re)viver tantas outras memórias.

Minha razão grita em meus ouvidos que eu deveria ter sentido isso no Brasil ou em outro país não-europeu, afinal, pra quê idealizar tanto a terra colonizadora? Mas não tive escolha. Portugal aconteceu, simplesmente. E ainda bem que veio na hora certa e do melhor jeito.

Explorar Lisboa era uma delícia, mesmo nos dias chuvosos, ou nas noites badalas.

Hoje à tarde, descobri que toda essa euforia que esbanjo por aquela viagem não é porque Lisboa é Lisboa (substantivo e adjetivo ao mesmo tempo), nem porque Portugal é o terceiro país mais seguro do mundo (pelo menos segundo minha professora portuguesa). A razão dessa saudade toda é porque, em Lisboa, encontrei-me comigo mesma e descobri que eu posso ser uma companhia e tanto, viu!

Lisboa noturna
Oh, Lisboa...

Não se trata de narcisismo recalcado, nem de falta de amigos. Nada disso.

Se você já foi no psicólogo alguma vez, provavelmente ele deve ter repedido: “antes de amar alguém, você tem que amar a si próprio”. Ou e

ntão, se você é cristão, talvez se lembre que Jesus disse para ‘amar o próximo como a nós mesmos’, ou seja... ame-se primeiro. Isso pode até parecer piegas, mas verdadeiro amor-próprio é uma das coisas mais difíceis de se construir.

Eu poderia passar horas escrevendo argumentos de porque isso é uma das poucas verdades do mundo, mas além de ser muita presunção minha, seria um texto muito difícil de escrever. Tudo o que eu quero agora é relaxar minha mente e incitar alguma coisa em você que (por quê?) está me lendo agora.

Mas não posso deixar de sugerir duas leituras fáceis e iluminadoras: Ensaios sobre amor e solidão, do meu guru Flávio Gikovate; e O mito do porto espinho, do Leandro Karnal. Este último é de leitura bem rápida, enquanto o do Dr. Gikovate há uma abordagem teórica um pouco mais intensa.

Retomando o fio da meada:

Um dos pequenos prazeres que tenho na memória é a caminhada de 30 minutos do Hostel à Biblioteca Nacional, bob um sol bem quentinho. Lembrar disso tem sido especialmente gostoso agora, nesse mês ingrato de fevereiro. Sempre que chega fevereiro minha depressão sazonal vai lá pra cima. Até que este ano não tem nevado tanto, mas o frio e as chuvas não estão dando trégua. Pensei que ia congelar nestes últimos dias. Exageros arianos à parte, não tem sido fácil pra mim, nem pra muitas outras. Mas hoje foi um pouco mais gostoso. Estava um frio do caramba, capaz de cortar meus lábios e endurecer minhas mãos dentro da luva. No enantanto, havia sol, havia luz. O dia não estava cinza, mas amarelinho como o eixão de Brasília na primavera, com aquele tantão de ipês.

Voltei andando, porque entre esperar pelo ônibus por 30 minutos em baixo do frio, preferi me aquecer caminhando. O problema é que estou doente. Esta semana quase morri de crise de gastrite... eu cheguei ao ponto de não conseguir ingerir nem sopa. Terça-feira cheguei na médica chorando: “eu preciso comer, eu quero comer, mas eu não consigo comer e eu tenho aula às quatro.” E quanto mais ela ficava com dó de mim, mais eu queria a sopa de fubá da mamãe – não porque eu poderia comer, mas porque o cheiro daquela sopa é de aconchego materno. É, que falta a mamãe me faz. O pior é que achei melhor nem ligar pra ela, “o que ela vai fazer nessa distância, meu deus!?”

Desculpem, já estou divagando de novo... é que apesar de ter aprendido a ser independente e a cultivar o amor-próprio, todo ser humano é, no fim do dia, um ser social e carente de mãe (Gikovate).

Continuando:

Hoje voltei caminhando naquele frio, toda torta de dor e com muito trabalho para terminar. No fim da caminhada, algo aconteceu dentro de mim. Não sei explicar o que foi, mas minha mente foi invadida com imagens das minhas viagens ao Panamá (2010) e Portugal (2019), além de umas memórias da minha infância e respirei, respirei fundo e tive a certeza: “eu consigo mais essa.”

O frio continuou, a dor era a mesma e eu também. A diferença? Eu entendi que essas dificuldades todas também são uma viagem de orçamento curto, por isso tão intensa e especial.

Já em casa, resolvi dormir. Acordei as 21, li o livro sensacional A vida invisível de Eurícide Gusmão, de Martha Batalha (mais detalhes em breve) e percebi que tinha que escrever.

Agora já tomei minha dose de Kifir, meu suco de cherry e estou pronta para o itinerário dessa próxima semana.

#europa #literatura #pessoal #viagem #foradobrasil

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