Entrevista com Marta Batalha

Atualizado: Jan 30


Tomei um café da manhã delicioso com a Martha Batalha e, logo em seguida, tivemos uma entrevista muito legal sobre literatura, feminismo, raça e cinema. Em breve a entrevista em vídeo estará disponível, além de uma resenha sobre o livro dela que foi adaptado para o cinema, A vida invisível de Eurícide Gusmão, e um texto mais pessoal sobre minha experiência com a Primavera Literária 2020. Enquanto isso, compartilho com vocês a transcrição dessa conversa inspiradora:

(pra = para)




INTRODUÇÃO

Oi, pessoal! Aqui é a Laís Lara, diretamente de Indiana University, e nossa convidada especial Martha Batalha. Nessa manhazinha de segunda, convidamos vocês para uma conveersa sobre literatura, cinema e feminismo. Essa entrevista é uma iniciativa do OLAH (Organization of Lusophone and Hispanic Students) que pegou carona com a Primavra Literária 2020. Neste ano, uma das nossas convidadas é Marta Batalha, jornalista, mestre literatura, autora de dois livros de ficção. Hoje vamos falar especialmente sobre seu livro de lançamento, A vida invisível de Eurícide Gusmão, porque tem sido um sucesso total, não é mesmo, Martha?

O livro de foi publicado em 18 países, além de ser selecionado para o Prêmio Literário de São Paulo e para o Prêmio Literário de Oceanos, em Dublin. Recentemente, foi adaptado para o cinema, onde ganhou ganhou um prêmio no Festival de Cannes, e será a submissão do Brasil à categoria internacional de longas-metragens no Oscar em 2020.

Antes de assistir esse vídeo por completo, queremos avisar vocês que em nossa conversa vamos soltar alguns spoilers.

Marta, obrigada por aceitar nosso convite!Fique à vontade para me interromper e fazer perguntas. Essa entrevista vai ser bem mais um diálogo Paulo Freiriano, do que um interrogatório do Santo Ofício espanhol.

Martha Batalha e Lais na IU
Que dia lindo!

Laís Lara: Olha, que livro deliciso de ler, Martha! Em uma tarde li A vida inivísvel do início ao fim. Cheguei a ponto de dar risadas em voz alta! Eu me relacionei tanto com que você escreveu que, na hora de me preparar para essa conversa, fiquei perdida em meio a tantos temas interessantes. Então, pensei em começar com aquilo que primeiro chamou minha atenção: a última linha da sua dedicatória. Você escreveu:

“E para a melhor professora de português que alguém poderia ter: Solveig, esta é a menina de doze anos retribuindo o que você me ensinou” – quem foi essa senhora tão especial na vida da Martha de 12 anos?

Marta Batalha: foi a minha professora de português, quando eu estava na sétima oitava série no colégio e eu tinha que escrever pra ela toda semana e a gente tinha um caderno de criação e ela me ajudou muito no processo criativo. Eu tinha que escrever!

Na verdade, se eu pudesse, eu dedicaria todos meus livros aos professores porque foram ele que abriram minha cabeça e me ensinaram muito. Eu acho que ninguém, você, eu, nós não seríamos ninguém sem bons professores. Até hoje ela tá dentro de mim! Alguns professores... professores quando é bom nunca mais sai de você.

Laís Lara: Como você resume o plot do seu livro, sem spoilers por enquanto?

Martha Batalha: é a história de duas irmãs no Rio de Janeiro dos anos 1950-1960, e o que elas tem que fazer para tentar se realizar na vida. Uma delas é muito inteligente, tem sonhos, gostaria de se realizar tocando, cozinhando, fazendo algumas coisas, mas ela acaba se casando com um marido muito conservador e acaba sendo confinada à vida de casa quando ela poderia estar fazendo muito mais. E a Guida, irmã dela (Eurídice), é muito mais apaixonada, muito mais pela emoção do que pela razão e ela também tem uma vida muito sofrida por querer agir com essa liberdade.

Laís Lara: li no prefácio que essas histórias foram inspiradas nas suas avós...

Martha Batalha: um pouco. Acho que a Eurídice e a Guida e as outras personagens femininas do livro (são muitas, né?) são uma amálgama de todas as mulheres que eu conheci. E, obviamente, não existe uma Guida, uma Eurídice, uma Zélia, uma Eulália. Mas são todas essas mulheres que eu conheci na minha vida, mais velhas, e que tinham um pouco dessa questão de não conseguirem... a felicidade delas foi muito limitada e algumas delas viveram tranquilas com isso, outras eu sentia que se tronaram um pouco amargas por causa dessa situação.

Laís Lara: ah, sim. Eu tinha tido a impressão que se tratava de algo biográfico.

Martha Batalha: não, não tem!

A ESCRITA

Laís Lara: Eu comecei a leitura do seu livro sem ter ideia quem era você, muito menos do que se tratava a leitura. Conorme fui lendo, fiquei impressionada com a conexão da obra com minha pesquisa aqui no doutorado. Tenho pesquisado uma autora carioca bem prolífica da primeira metade do século XX que caiu na invisibilidade academica e popular, a Emi Bulhões. Os textos dela estão exatamente no contexto histórico do Rio de Janeiro de 1940-1970. Lendo seu livro, consegui visualizar muito melhor o contexto opressor da mulher nesse período. E minha pergunta é: como voce encontrou tanto realismo para falar de uma época em que não viveu? Quais foram seu métodos?

Martha Batalha: eu fiz bastante pesquisa, sim. Na verdade, é muito difícil fazer pesquisa quando você está escrevendo porque assim... você já gosta de procrastinar para escrever...Eu li muito um autor chamado Luís Edmundo. Ele escreveu muito sobre o Rio de Janeiro daquela época, vi muitas fotos, li muita coisa de jornal. E quanto mais eu lia, mais eu queria contar as histórias daquela época. É um livro que não se concentra nas histórias da Eurídice e da Guida. Há várias histórias paralelas. Quanto mais eu lia, mais os personagens chegavam na minha cabeça e mais eu queria escrever sobre aquela época.

Laís Lara: você estava pesquisando por algum motivo especial ou por causa do livro?

Martha Batalha: por causa do livro. E eu sou uma apaixonada pelo Rio de Janeiro. Eu sou carioca, morei em todas as partes do Rio de Janeiro, nascida na Tijuca. Carioca assim: eu nasci em Recife, mas eu fui muito cedo pro Rio de Janeiro, morei Zona Norte, Zona Sul, Alto da Boa-Vista, Zona Oeste. Minha vida de repórter me levou para todos os lugares da cidade. Sou uma apaixonada pela história do lugar.

Laís Lara: Encontrei minha autora, Emi Bulhões, em uma coletânea em inglês, chamada One hundreded years after tomowow, da professora Darlene Sladlier, na qual Sadlier escolhe 20 autoras do século XX que caíram em esquecimento. E quando finalmente entendi o título do seu livro, pensei em quantas Eurícides não conhecemos e, pior, em quantas Eurícides nunca puderam florecer. Eu queria saber como foi seu momento eureka de perceber que essa questão da invisibilidade e impossibilidade feminina poderia se tornar esse livro?

Martha Batalha: todo escritor tem o que a gente chama de “falsos começos”. Às vezes você começa um livro, não funciona. E esse, por alguns motivos, funcionou. Esse livro começou com uma hipótese: o que aconteceria com uma mulher brilhante se ela nascesse num tempo e num lugar que ela não pudesse se realizar? Uma das questões que me incomoda muito é a quantidade de material humano que a sociedade, pela forma como ela está estruturada, joga fora. Esse gasto, como ela desperdiça material humano! Então eu pensei nisso, o que aconteceria com uma pessoa... uma mulher, num lugar que eu conhecia muito bem que era a Tijuca conservadora, o bairro onde eu fui criada daquela época.

ESTILO E TEMAS -FEMINISMO

Laís Lara: Gostei muito do humor do seu estilo literário. Muitas vezes ri alto porque ou você escrevia uma sequência de frases curtas e irônicas ou a situação era tão absurda, porém tão real, que eu pensava: “é melhor rir para não chorar... e o pior é que isso ainda acontece hoje”. E faço esse comentário porque tenho uma série de perguntas sobre isso: como foi o processo de escrita e edição do seu texto? O humor aprace porque essa é você, por escolha ideológica? Como foi para você escrever sobre tantas micro e macro violências domésticas nós, mulheres, temos enfrentado há tanto tempo?

Martha Batalha: quando eu sentei pra escrever esse livro, eu não pensei: vou escrever um livro feminista. Inclusive, eu acho que a questão do tema do livro foi uma coisa que eu só percebi quando o livro estava pronto. Então eu fui contando essas histórias e eu acho que todos os personagens, inclusive os personagens masculinos, esbarraram em alguns dogmas da sociedade. Quando eu estava querendo contar essa história, eu estava mais preocupada em falar de uma maneira geral sobre todos os preconceitos e as limitações de uma sociedade patriarcal do que basicamente sobre o feminismo. No final, isso ficou muito forte, mas eu nunca pensei nisso especificamente. Eu não me considero uma feminista de chegar e falar “agora todos os meus livros vão ser feministas, eu só vou tratar de temas feministas”.

Eu prefiro ser uma feminista que pode escrever sobre qualquer coisa, sobre os temas que me incomodam e a questão da limitação das mulheres é só um deles. Outros temas me incomodam muitíssimo sobre os quais eu gosto de escrever: a desigualdade do Brasil... eu tenho uma reação muito forte com os temas do Brasil. Então sobre essa questão do feminismo, primeiro não foi consciente, por incrível que pareça, e foi uma coisa que eu só descobri quando o livro estava pronto. Só então descobri que o tema que permeia todo o livro é a questão da mulher.

Laís Lara: seu comentário me faz lembrar de uma das minhas autoras preferidas, que é inclusive dessa época, a Rachel de Queiroz. Os livros dela, para mim, são completamente feministas. Mas ela fazia questão de dizer que ela não apoiava o movimento político. Não estou dizendo que essa é sua posição, mas o meu ponto é que essa questão da mulher está tão dentro da gente...a gente tem uma repressão histórica tão grande que esse tema simplesmente aparece, independente se a gente tem alguma filiação ideológica.

Martha Batalha: o meu problema com o feminismo é que eu não quero ser considerada uma escritora feminista e ser só lida por mulheres e só tratar deste tema, entendeu? Eu quero ser considerada uma boa escritora que pode escrever sobre qualquer coisa. O meu primeiro livro tratou dessa questão das mulheres e outros livros vão tratar sobre outros temas. Eu acho que essa é a grande luta da mulher: ela ser reconhecida pelo bom trabalho que ela faz independente dela ser mulher ou homem.

ESTILO E TEMAS- RAÇA

Laís Lara: Martha, você fez um trabalho tão claro para mostrar como o Brasil era dividido por classes sociais e por raça! O jeito natural como você inseriu o pensamento racial Gilberto Freyre me impressionou. E sobre isso, queria que você nos desse mais detalhes sobre sua estratégia de abordar a populaçâo negra na obra. Por exemplo, quando a narradora começa a falar da vida sofrida da empregada mulata Das Dores, a narradora rapidamente se corrige, dizendo que aquele não era o lugar de falar de mulheres como ela, e que a Das Dores apareceria só de vez em quando no livro, pra lavar a louça. Sinto que os outros perosnagens negros também aparecem de vez enquanto e de formas às vezes reduzidas por epítetos, como “negrinha do cabelo pixaim” e o “mulato da papelaria”. Essa abordagem é uma forma de mostrar a limitação do seu lugar de fala como autora branca? É um jeito de mostrar que se a Eurícide fosse negra a situação seria ainda mais complicada?

Martha Batalha: eu não penso em lugar de fala, não é uma coisa que passa pelo o que eu estou escrevendo. Essa questão do lugar de fala vem pra mim de uma forma muito intuitiva, porque é uma história que eu conheço, que eu quero contar. O autor tem que ter liberdade para escrever sobre o que ele quiser. Segundo, a questão de raça me incomoda muito no Brasil. Eu fiz questão de usar todas as palavras racistas possíveis e imagináveis. A questão da “neguinha do cabelo pixaim”: eu escrevi com um prazer incrível e estava dentro do pensamento do Antenor, porque é assim que as pessoas pensam na época. Existem certas palavras, certos termos, que precisam ser usados porque é como as pessoas da época pensavam (e pessoas ainda hoje pensam assim). E a outra questão é a seguinte: eu tenho um narrador muito irônico, muito ácido. Ele não mede as palavras pra falar como eram as coisas naquela época e como é a história que ele está querendo contar.

E esse narrador, quando ele diz que ‘essa não é uma história da Das Dores, que a Das Dores está só na cozinha’, ele está querendo dizer exatamente isso: o papel pequeno que ela vai colocar na história e como os problemas dela, que provavelmente eram muito maiores que os problemas da Eurídice, porque ela tinha que acorrentar as crianças e tudo mais, não cabem ali. Os problemas da Das Dores não tinham muita atenção da sociedade. Eu acho que é um pouco por aí. Eu acho que as pessoas confundem. Primeiro as pessoas não entendem a ironia do narrador e que você falar sobre alguns temas não significa que você concorde com eles. Mas é muito importante você usar termos assim dentro do ponto de vista dos seus personagens. Isso não pode ser criticado. Isso não pode jamais ser censurado.

Esse preconceito ainda existe hoje. Não falar sobre isso não significa que isso vai deixar de existir. E falar sobre isso não significa que você concorde. As pessoas precisam saber ler e fazer as distinções. Há uns termos tão horríveis que se usam, né? “Refinar petróleo”, essas coisas assim, sabe? Termos horríveis que as pessoas usam!

Laís Lara: eu concordo! E hoje estamos em uma onda de esquecimento, de negação da história... seu livro mostra exatamente o que estava acontecendo e que ainda há resquícios disso muito evidentes no Brasil de hoje...

Martha Batalha: é, eu acho muito importante que não exista censura na escrita e que temas delicados possam ser falados sem nenhum eufemismo.

(Durante um pequeno break, Batalha nos deu uma sugestão ótima: você tem que ler o conto “The artificial niger.”, de Flannery O'Connor. Esse conto é genial! E ela (a autora) fala de todo esse racismo. Eu morro de raiva de escrever sobre isso)

O FILME

Laís Lara: Martha, eu ainda tenho tantas perguntas, mas nosso tempo está acabando. Por isso, queria pular para o filme um pouquinho. Eu assisti ao filme e chorei muito. Fica bem complicado pra mim expressar tudo o que senti diante da história, da interpretação dos atores, do olhar da Fernanda Montenegro, meu Deus! Uma verdadeira obra de arte! Também fiquei impressionada que se trata de outra história, de outro tom. Mas ao mesmo tempo seu livro está lá dentro. Por que é tão diferente?

Martha Batalha: é diferente porque o diretor tem uma visão e uma forma de fazer arte completamente diferente da minha. Eu escrevi uma tragicomédia, ele fez um melodrama. Eu acho que o filme funciona, é um filme forte, é um filme que me deixou muito feliz depois que eu vi o resultado, justamente porque ele teve toda a liberdade pra fazer o que ele queria fazer. Eu não me meti, eu não disse como é que tinha que ser. E quando eu vi, fiquei muito impactada. Também me deu aquele alivio porque, apesar de ser muito diferente, é um livro muito bonito. Foi um retorno muito positivo. Fiz um livro que gerou outra obra de arte que é bonita, tem uma visão própria, uma voz própria e que eu jamais faria aquilo, assim como o diretor jamais faria alguma coisa da minha forma de escrever, mas uma coisa complementa a outra. Eu respeito muito o trabalho dele e ele respeitou meu livro. O filme realmente é um filme muito forte e bonito. Muito angustiante, né? Faz a gente sofrer.

Laís Lara: muito! E o olhar da Fernanda Montenegro? Aquele olhar me fez lembrar do olhar da Eurícide no livro depois que ela conquista sua independência, depois que ela lê e vira escritora. O que também me lembrou uma foto clássica da Clarice Lispector, na qual ela está olhando assim (Laís imita o olhar) distante... esse olhar de uma mulher independente, resolvida, que entende o que está acontecendo e fala: “you know... vocês ainda tem muito o que aprender!”. Parabéns pra vocês, ficou muito legal.

Martha Batalha: obrigada!

Laís Lara: como surgiu o convite?

Martha Batalha: em um mês eu estava praticamente desistindo de escrever porque ninguém queria comprar o livro no Brasil e eu estava assim: o que eu vou fazer? Já tinha deixado meu emprego em Nova York. Pensei que eu precisava fazer alguma coisa, talvez abrir uma lojinha de doce brasileiro, alguma coisa assim. E aí a minha editora levou meu livro para a feira de Frankfurt e uma publisher (deve ter uma né, alemã que lê português?!) pediu pra ler o original, o manuscrito ainda, não era nem o livro nem nada. Ela leu e se apaixonou. Ela fez uma love letter pro livro.

Eu me lembro: em uma semana ninguém queria comprar o livro. Eu ia desistir de ser escritora. Na semana seguinte, cinco países tinham comprado e, naquele mesmo mês, o Rodrigo Teixeira comprou o original, leu e falou “vamos fazer um filme”. Foi tudo muito rápido!

Laís Lara: uau! Deve ter sido muito emocionante!

Martha Batalha: ah, foi sim! Eu chorava assim...

Laís Lara: Vamos fazer um ping-pong?

Mulher: luta

Eurícide: tanta coisa...

Maternidade: alegria

Machismo: câncer

Virginia Woolf: modelo

Estados Unidos: complexo

Uma comida: arroz com feijão

Uma frustação: eu tenho cada vez menos

Família tradicional brasileira: é uma temática que vai voltar, voltar e voltar na minha escrita

P.s.: leiam muito, tudo!

Link sobre o filme:

https://www.cartacapital.com.br/cultura/a-vida-invisivel-de-euridice-gusmao-trata-das-violencias-as-mulheres/

Trecho do livro: https://entretenimento.uol.com.br/noticias/redacao/2016/04/15/leia-trecho-de-a-vida-invisivel-de-euridice-gusmao-de-martha-batalha.htm

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