Aos professores de 2020, feliz 15 de outubro



Em momentos de crise, vemos o pior e o melhor das pessoas.

Você bem sabe que isso é verdade quando o tema é 2020, né?


Consegue se lembrar de alguém que, mesmo virtualmente, te motivou neste ano? Na minha lista, há um par de amigos e professores. A propósito, os professores realmente nunca desistem... não, não há pandemia que derrube o instito pedagógico deles.


Aposto que você se lembra de pelo menos um professor que te marcou de alguma forma positiva. Qual é a primeira história que veio na sua cabeça?


Todo 15 de outubro tento escrever algo sobre o estado de ser professor(a), mas o texto deste ano vai ter que sair atrasado por motivos de estresse elevado e tempo reduzido, mas antes tarde do que nunca.


Tia Raquel era mais moderna do que eu =)

A cada ano experimento a mesma sensação de impotência, já que há tanto para desabafar, defender, agradecer, sugerir, chorar, comemorar.


Há tanto, tanto, mas tanto que minha TAG[1] se ativa e nunca consigo articular tudo o que está no meu peito... mas ora bolas, que atire a primeira pedra quem consegue esse proddígio, então.


Não abro mão de escrever esse texto porque, sim, coloco minha mão no fogo pelo poder transformador da educação e confio de olhos fechados em bons professores. Como diz Brené Brown (minha nova pesquisadora favorita) os professores escolhem lutar todo dia na arena.


Obrigada, professores. Obrigada, Paulo Freire.

Ai, ai....


Quando foi mesmo que entendi que me tornaria professora?


A UnB diz que foi em 2015. A IU diz que só em 2024. Eu digo que foi quando tinha seis anos – ui, pretenciosa eu, não?

A turma toda =)

Ah, gente.... um pouquinho de exagero romântico não faz mal a ninguém...


Exageros à parte, minha primeira memória afetiva com uma professora foi nessa idade. Era minha primeira semana numa escola nova, na alfabetização. Meus pais haviam me mudado pra uma escola bem maior do que a anterior, bem no meio do ano letivo.


Ainda me lembro daquela sensação intensa de vergonha e não pertencimento dos primeiros dias. Mal sabia eu que a aquela escola seria fundamental na formação dessa pessoa curiosíssima e metida a artista que sou hoje.


Minha memória começa assim:


Pintava um desenho qualquer em todas as direções, criando uma arte verdadeiramente caótica (qualquer semelhança com a Laís atual não é mera coincidência), enquanto a Tia Raquel andava pelos corredores da sala checando nosso trabalho. Ela estava no meu corredor... me abordaria pelas costas a qualquer instante.

Engraçado: enquanto escrevo isso, sinto minha respitração bem curta e a minhas bochechas super quentes. Porvavelmente as mesmas reações corporais que os passos dela me causavam.


(Gente do céu, eu já era paranóica com pessoas em poder nessa época – cadê minha terapeuta agora?)


Eu fingia que nem percebia que ela estava chegando.


Lindas! Esse meu sorriso fala tudo...

Graças aos meus olhos das costas, vi que ela tinha parado do meu lado, mãos cruzadas pra trás e com aquele biquinho de hum, isso não tá legal mocinha. Pronto, acabei de chegar, não conheço niguém e ela ainda vai me odiar porque eu não sei nem pintar e todo mundo vai saber que eu não sou legal e ninguém vai querer ser meu amigo e esse ano vai ser horrível.


(Ai, Laís, você carrega muita culpa, menina. Relaxa, gata. Vai ler a Brené Brown, vai.)

Gente, eu não tô de lorota. Eu me lembro desse dia desde sempre, da mesma forma, do mesmo jeitinho. Era muita vergonha, muita culpa, muito medo. E eu só tinha seis anos e só tava pintando! (Se ao menos tivesse pintando o sete...) Nem entendia nada de patriarcado, machismo, toxidade. Dá até pra me entender melhor agora... free writing tem dessas manias terapeuticas. Super indico.


Voltando, antes que você também se irrite:


A Tia Raquel se abaixou na minha carteira dizendo alguma coisa que já não me lembro. O que me lembro é do jeito dela comigo, ela falou baixinho, segredando algo só comigo.


Ufa. Ninguém tá escutando a gente.


Aí ela pegou minha mão que segurava o lápis de cor e me mostrou que para cada parte do desenho eu precisava escolher uma direção pra colorir. Viu só como fica ainda mais bonito?!


Uau.


Tô cheia de suspiros e sorisos aqui ao me lembrar desse dia.


Com meu maninho amado, Didio

Não sei como, mas a Tia Raquel sabia que eu estava morrendo de vergonha, de medo e de insegurança. Ela falou baixinho, gente! Como ela sabia que tinha que ser assim?


Fora que foi ela quem me ensinou a ler e que avisou meus pais que eu precisava de óculos =)


De quantas formas essa professora me ensiou a ver, meu Deus!?


Depois dela, vieram a Adriana, a Cíntia, o Haroldo, a Alessandra, a Fernanda, a Sônia, o Osnir, o Luisão, o Antônio, o Pedro, a Simone, a Maria, a Virgínia, a Luciana, a Estela, a Abeunde, a Thomas, a Grim...


A lista é grande. Sem contar que ainda estou deixando de fora aqueles professores que não tem a mímina ideia de são meus professores. Leandro Karnal, Lilia Schwarcz, bell hooks, Brené Brown nunca terão ideia do tantão que eles influenciam minha maduracao professional e pessoal. Sim, porque profesor tem disso de acessar a vida pessoal dos alunos... ainda bem.


Aqui nos Estados Unidos, dizem que o professor que também ensina sobre a vida é também um mentor. Particulamente, acho que todo bom professor é mentor por natureza e que Paulo Freire sacou isso antes de todo mudo. Não digo que um mentor vai dar atendimento especializado pra cada aluno, seria impossível.


Penso que são mentores porque se importam; porque são freirianos mesmo sem nunca terem lido A pedagogia do oprimido; porque se precisarem começar uma aula chorando, tudo bem! Porque reconhecem quando falar baixinho, quando fazer piruetas, quando dar aquele tempo extra pro aluno terminar o assigment. Porque sendo ou não brasileiros, não desistem nunca.


Obrigada, Tia Raquel, por abrir meus olhos.


Obrigada aos professores que fizeram a diferença na minha vida.


Obrigada a meu irmão, cuja coragem me fez deixar jornalismo e seguir a pedagogia.


Obrigada, Diera, por ensinar o Artur e fazer a diferença na educação especial no Brasil.


Obrogada aos meus colegas da IU.


Parabéns a todos nós.

[1] Transtorno de Ansiedade Generalizada



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