Bodas de Malaquita – uma cartinha cheia de amor aos meus abuelos


De Bloomington, IN, USA

Para Maurício e Clarice, Franca-SP, Brasil



Quando a gente se casa, a gente acredita que vai ser pra sempre.


Talvez dizer “sim, eu aceito” seja mais uma múltiplas impossíveis tentativas que encontramos pra eternizar a vida, tranquilizar as incertezas e desmistificar o amor.

Pois é, mesmo conhecendo essas impossibilidades todas, muita gente ainda decide acreditar no casamento. Não tem jeito: ser humano é bicho teimoso mesmo.


Ele e eu sempre tínhamos essa mesma discussão:


- como você e teimoso, Honey!
- Eu não! Teimoso é quem teima comigo.

E depois de tanta teimosia era risada pra todo lado, beijinho rápido e abraço longo. Pena que não começou em dança como é o caso de vocês, né abuelos? Será que se tivesse sido assim nosso desenlace teria sido diferente?


Pensei muito em vocês nesta semana. Me lembrei de tanta coisa gostosa que a gente viveu juntos. E todo julho é assim pra mim, porque julho e dezembro significavam ir pra Franca de carro, contando os sonos do trajeto pra chegar mais rápido, e ficar o mês todinho com bolo de chocolate, melancia sem semente e o abuelo controlando a televisão nas tardes de domingo.


Ah, sim... julho era uma beleza... a Diera sempre fazia as melhores surpresas pro aniversário de casamento de vocês e me colocava na comissão de frente. Eu me lembro de tantas surpresas diferentes que a gente organizou pra vocês no fim do ano. E ontem foi tão bonitinho ver a cara do vovô no zoom...ele realmente não tinha ideia que as buzinas eram pra vocês dois. Depois de tantos anos ele ainda ficou de queixo caído.


Antes de continuar, me permitam agora um parêntese pequenininho:

Uma das coisas mais legais que aprendi em terapia foi padrões da infância e adolescência se repetem na vida adulta. Às vezes esses padrões se repetem de forma inconsciente, outras vezes a gente faz questão de provocá-los. Independente da origem, quando a gente reconhece esses padrões, começamos a entender melhor a nós mesmos e nem preciso explicar porque isso é tão importante, né?


Esta semana, me dei conta de que muito do jeito como amei e amo tem a ver com vocês. Aqui não falo somente dos meus amores românticos, como aquela minha primeira paixão de Igarapava com nome bíblico; como minha segunda ilusão que quase me fez entrar pra família da Diera; como daquele moço de Brasília com apelido de jogador de futebol cuja rejeição doeu tanto que até me fez parar de comer; ou do último, aquele loiro de Franca que me conquistou com uma ladainha de tempo relativo, um cartão com poesia e um abraço longo no planetário de franca.


Falo também do amor que tenho pela minha família, pelo meu trabalho, pelo meus alunos, pelos meus amigos e pela nova família que tenho construído aqui em Bloomington ao longo desses três anos. Será que não tô sendo especifica? Vou tentar ser mais clara:


Celebrar todos esses julhos me fez gostar de expressar amor em palavras, especialmente em palavras escritas em tom de poesia clichê. Aprendi que escrever uma carta pra um amigo, seja uma carta de é, sim, um ato de amor. Há quem diga que ações valem mais do que palavras. Bom, concordo parcialmente mas agora não é hora de debater isso, talvez em outra carta, para outra pessoa. O negócio é que mesmo esse ditado diminuindo o poder das palavras, não exclui que dizer “eu te amo”, explícita ou criativamente, em voz alta ou no papel, no particular ou em público, tem, sim, um valor bem grande.


Celebrar todos esses julhos me ensinou que certos rituais são muito gostosos, dando um prazer danado.


Celebrar todos es julhos me fez lembrar que eu quero construir uma família que se cuide mutualmente.


Celebrar todos esses julhos me faz lembrar que Lulu Santos não é (nem vai ser) o último romântico.


Celebrar todos esses julhos me fez lembrar porque amo escutar, ler e criar histórias.


Celebrar todos esses anos até mesmo me ajudou a entender porque eu amo dançar a dois.


Vocês se conheceram num baile e o chapeuzinho do abuelo era muito irresistível pra abuela. Vocês dançaram aquela noite e nunca mais pararam. Eu escutava isso julho após julho e nunca me cansava. E a medida que crescia, ficava fantasiando como seria aquele abuelo jovenzinho que, por se apaixonar à primeira vista, toda noite escrevia sobre o que sentia num diário já hoje tão amarelado.



E assim fui criando minhas fantasias românticas. Infelizmente, algumas dessas fantasias me custaram caro, mas isso não diminui o tanto que elas fazem parte de quem sou e de quem estou tentando ser. E eu vivi muita coisa deliciosa por causa desse tipo de amor adolescente, abuelos. O que eu mais tenho é história pra contar, escrever e publicar. Não se preocupem, sua neta tá muito bem. Ok, o advérbio foi exagero, mas fato é que tô cheia de amor pra compartilhar, lotada de afeto pra doar e inchada de saudade.


Por falar em saudade, essa quarentena só faz esse sentimento português, já naturalmente intenso, ficar à flor da pele, né?


Não tá sendo fácil.


Mas como se diz em bom e velho paulistano “tamu junto” e “tamu memo!” Vocês viram isso ontem com máscaras, álcool gel e distanciamento social.


56 anos, em...


Ainda me lembro daquele festaço dos 40 anos.


Eu tinha 14 anos e, meses antes, fiquei internada com pneumonia. Vocês dois saíram voados de Franca pra ir me ver, lembram?


Me lembro muito bem de estar toda fraquinha no hospital e a abuela chegar com um caderninho pra gente fazer os planos da festa: logística, convidados, enfeites, homenagens...aquilo me fez tanto bem...


Hoje de manhã perguntei pro abuelo se ele ainda tinha o diário. Aí ele me escreveu assim pelo zap zap:


Tenho. Está guardado quando você vier aqui. Vou deixar você ler todas as folhas. Laís, 20 de abril de 1963 eu tinha 21 anos. Conheci sua avó em um baile. Começamos a dançar num salão que pertencia à usina de açúcar. Ele mora na fazenda. Neste encontro marcamos que eu iria passear na casa da vovó dela que morava nesta usina, a Usina Junqueira. Ela não acreditou que eu iria porque era moço da cidade e ela da roça. Mas eu fui. Cumpri o que prometi. Ela foi no ônibus me esperar. Quando desci, lá estava ela e fomos pra casa da vovó Ana que se fosse viva seria bisavó. O resto da história está no meu diário, tudo passo a passo. Durante um ano e meio namoramos e casamos onde você viu. 25 de julho de 2020. Hoje, sábado, o mesmo sábado do dia 25 de julho de 1964. E daí surgiu a turma: Júnior, Claurício, Sandra, Ana Paula, Laís, Rodrigo, Fernanda, Vítor, Artur – o resto da história está no caderno. Beijos.

Como boa professora de literatura, fiquei analisando cada frase dele. Mas não vou fazer isso aqui porque esta cartinha já está ficando grande e mais do que ler sobre histórias de amor bem sucedias como a de vocês, a gente tem usar nosso tempo pra disfrutar, criar e recriar as nossas próprias.


Mas antes do meu bye bye, preciso compartilhar mais uma lembrança:


Eu sempre chorava rios quando vocês iam embora lá de casa ou quando eu tinha que voltar pra Brasília. Pra me consolar, a abuela dizia que só precisava contar nos duas mãos cheias e, então, gente se veria de novo. Passados os 10 dias, eu ligava pra ela (no fim de semana, e depois das 18h, claro, afinal fazer chamada interurbana era muito caro) e pra dizer que eu já tinha acabado as duas mãos. Daí ela me falava pra contar tudo de novo, que ia passar rapidinho. E passava mesmo. Não sei exatamente como...


Talvez porque era um exercício que envolvia concentração ou porque me distraia. Mas pensar em blocos de dez foi uma estratégia ótima pra remediar a saudade. Hoje, com essa situação louca do cornona, não temos ideia de quando meus pais vão poder pegar a estrada e eu o avião pra abraçar e beijar vocês. Então, é hora de fazer o esquema das mãos. A cada dez dias, a gente reunia a contagem e, quando menos esperarmos, o mundo vai ter voltado ao normal.


Abuelos, continuem de quarentena. Mas liguem o som, toquem aquele forrozinho e continuem a fazer a festa que vocês começaram há 56 anos, mas dentro de casa. Em breve a gente se reencontra.


Feliz 56 anos de casamento.


Amo vocês.


Su nieta,


Lalá, Tatá, Lá, Lindinha, Laís Lara.




Olhem esses nossos olhares!
Nós três =)


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