Feminismo – por onde começar?

Atualizado: 16 de Jul de 2020



Minha resposta aberta à pergunta da minha amiga, pois é uma questão de utilidade pública! 

Oi, amiga! 

Dois meses depois da sua mensagem, finalmente consegui te responder. Como dizia minha professora Abegunde, life happened. Me mudei pela terceira vez em cinco meses, tenho passado bastante aperto com dinheiro, estou super atrasada c deadlines e a vida pessoal, como você bem sabe, é uma novela brasileira com dublagem mexicana. 


Eu poderia ter te respondido bem antes com algumas listas de leituras, vídeos

e músicas, mas eu queria fazer isso direito, com contexto e muito texto. Você não tem ideia como meus olhinhos brilharam quando você me perguntou como começar a entente é der melhor o que é feminismo! Eu queria que todo mundo do planeta fizesse essa pergunta.


Eu senti um orgulho danado de você, sabe? Me fascina o fato de que você, uma mulher forte, independente e que tem uma noção do que é o movimento, querer saber mais pra ficar ainda mais poderosa e ajudar de forma mais efetiva a outras mulheres – que vontade de abraçar você, sua mãe e sua avó agora. #saudade

Ah, parte da minha demora também aconteceu porque não me sinto pronta pra responder essa pergunta de forma completa, muito menos acho que sou uma especialista no assunto. Mas sabe de uma coisa? O que eu aprendi por meio de muita vivência em um mundo machista e por meio de muitas leituras feministas servem de introdução. Fora que nunca, jamais, nenhuma resposta será perfeita, completinha que nem as utopias marxistas. Sem mais delongas, vamos ao que interessa: empoderamento feminino, fim do sexismo e reconstrução da masculinidade. Antes, uma observação:

Eu poderia te explicar muitos termos e fazer uma revisão histórica bem bacana. Mas não tenho muito tempo. E acho que você vai se deliciar muito mais descobrindo isso tudo sozinha por meio das minhas sugestões e das futuras conversas que você vai ter comigo, com outras mulheres e aliados do movimento. Seria um texto muito pedante se eu tentasse te dar uma aula de feminismo aqui. Vou tentar pontuar alguma terminologia ao longo dessa cartinha e das minhas indicações, mas a responsabilidade final é sua, beleza? Tipo, te dou algumas ferramentas e dicas, mas você arruma carro e segue viagem.



Já que sou das letras, uma anedota é sempre bem-vinda: 

2011, segundo semestre de jornalismo na UnB: lá estava eu, uma Lais de 19 aninhos, de classe média, como o primeiro namorado com quem se casaria uns anos mais tarde, achando que ia mudar o mundo com reportagens investigativas (é, quem nunca passou por uma fase de idealização, ne?).  Na hora de montar minha grade, escolhi “Comunicação e Gênero” porque eu queria aprender os gêneros de reportagem e descobrir qual era o que mais me interessava. 

Entro na sala e vejo apenas umas dez pessoas, quando minhas turmas eram de uns 50 alunos. Minha segunda percepção foi que aqueles alunos eram muito diferentes. Quase todos eram gays, a maioria era mulher de cabelos coloridos e todos eles tinham uma áurea rebelde. Te juro: fiquei foi com medo – eu quase nunca saia das minha bolha social heteronormativa-cristã. E todo mundo tava super animado de ter aula com a Tânia e com a orientanda dela. Pois é, eu tava mais perdida do que pijama em lua de mel. 


Entram uma mulher de uns 50 anos, loira irreverente com uma voz super alta,e sua orientanda morena, linda, cabelo curto, pulseiras e muitas tatuagens. As duas começam a falar apaixonadamente, mas não sobre jornalismo. Não sobre gêneros de reportagem. Elas começam a falar sobre um tema que eu nunca imaginei que precisavam colocar na mesa: mu-lhe-res! BOOM! Estourei a primeira bolha da série de bolhas que me aprisionavam e nublavam minha visão. 




Ops:

Mulheres têm sido oprimidas desde sempre?

Hoje ainda sofremos com isso? Como e que eu não percebia?

Putz, não é que sempre me mandaram ficar quieta só porque eu tenho uma vagina!? Uai, gênero é diferente de orientação sexual?

Será que eu tenho tanto medo de dar minha opinião porque a sociedade me treinou assim, não porque eu sou muito tímida?

Pra ser bonita eu posso ter cabelo curto que nem ela?

Tá tudo bem não querer casar?

Eita, eu posso escolher ser ou não mãe e tá tudo bem? 


(Ai, amiga... vou até parar de transcrever aqui minhas perguntas todas. Você e tão mais forte do que eu quando eu tinha sua idade...) .

Esse foi meu primeiro contato com a liberdade. Desde então, nunca mais parei de questionar. Acabei com um monte de amigos (tóxicos) por isso e minha cabeça nunca mais ficou em paz. Estranhamente (ou não), fiz novas amizades (essas sim verdadeiras) e me sinto muito mais completa como pessoa.  Durante esse curso, conheci bastante da Virgínia Woolf. Por mais que eu queira falar pra você também começar com ela, não vou fazer isso. Como boa professora, preciso ser didática. Preparei cinco módulos para você.  Vamos a eles: 

1. Introduções: por que é a pergunta chave 

Primeiro, comece de forma divertida. Vejas duas palestras cheias de bom humor e super fáceis de acompanhar. São TEDX Talks de 20-30 minutos de uma das escritoras que mais gosto, a nigeriana Chimamanda Adichie. O objetivo aqui é te lembrar que a gente não pode parar de questionar nossa realidade. Uma forma de fazer isso, é por meio do feminismo. Além disso, tente entender em termos gerais o que é o feminismo. Ah, o fato de começarmos com uma negra nigeriana e proposital 😉 

A. “The Danger of a Single Story” (2009). Fique atenta:

  • Uma realidade pode ser (re)construída a partir de múltiplas histórias


  • Quais histórias únicas já falaram sobre você? Quais histórias únicas você já falou sobre outros? Quais perguntas podem nos ajudar a desconstruir ideias fixas? 


  • Quais são as histórias únicas(estereótipos) sobre o feminismo? Te digo algumas: homens e mulheres são iguais; as feministas são bravas; homens não podem ser feministas; mulheres, independentemente da cor da pele, são iguais. 


B. Veja “We Should All be Feminists” (2014) Perceba:

  • Como o feminismo beneficia homens e mulheres?


  • Você conhece essas palavras: sexismo, patriarcalismo, gênero? 


  • Como sua vida como mulher e diferente da de sua avó? Como você gostaria que fosse o mundo em sua filha vai viver?

C. Extra: 

  • Mesa redonda com a Chimanda:


  • Filme: O sorriso de Monalisa 


  • Música: Pagú

2. O Feminismo negro também é pra branco: desconstruindo estereótipos

Agora, você vai começar a se aprofundar um pouco mais. O objetivo aqui não e te explicar a história do feminismo, mas te mostrar que estamos falando de um tema complexo que envolve vários níveis de identidade como raça, classe e gênero

A. Perguntinha: Já parou pra pensar que a mulher negra ocupa a base da pirâmide nos países de colonização europeia? Você sabia que não queriam deixar  Sojourner Truth falar em um congresso sobre Direitos da Mulher porque, como ela era negra, iletrada, ex-escrava e abolicionista, algumas mulheres acreditavam que ela enfraqueceria a luta feminina por trazer a bagagem de raça? Ainda bem que ela falou! Veja aqui

B. Conheça as ideias de Sheryl Sandberg. Uma das mulheres mais influentes do mundo segundo a revista Forbes. Além de COO no Facebook, se tornou um ícone feminista com seu livro best seller Lean In (Faça acontecer). Faça uma análise crítica:


  • Quais são algumas limitações dos três pilares que ela defende?

  • O que ela não fala? O que esse silêncio significa?

  • Por que a fala dela é tão atraente? 

Sheryl Sandberg’s TEDx Talk, 2011:


Summary of her book, 2013: https://www.amazon.com/Lean-Women-Work-Will-Lead/dp/0385349947

C. Conheça bell hooks (com minúscula mesmo), uma acadêmica negra americana de enorme reconhecimento internacional. Leia a análise que bell hooks (2013) faz sobre o feminismo de Sheryl Sandberg. Leia aqui Tente entender pelo menos:

  • Mulheres negras, homens negros e mulheres não negras pobres e casais homoafetivos são excluídos com o feminismo coorporativo de Sheryl Sandberg. Por que isso é problemático? 

  • Por que precisamos lutar para mudar o sistema patriarcal em vez de lutar para fazer parte dele?


  • Quais são alguns dos pilares do feminismo de bell hooks? 

D. Extra:

  • 2 min de entrevista com bell hooks:




  • Músicas em inglês sobre eminismo negro: Veja aqui


  • Filmes: The Help / Neppily never after (filme Netflix) / Self made (série Netflix) Coisa mais linda (série brasileira Netflix)

3. Somos todas bruxas: qual é seu feitiço? 

Amiga, nossa conversa começou com bruxas e fogueiras, lembra? Se quiser reler aquela entrevista, releia aqui

Pensar em bruxaria me faz lembrar de literatura, aquela danada que me enfeitiçou e me trouxe para os Estados Unidos. Eu poderia sugerir tanta coisa.... mas quem tem tempo pra tanto, né? Então, segue aí meu Top 8:

  1. Poesia afro-americana: obra de Maya Angelou (1928-2014).

  2. Homem branco moçambicano feminista: A confissão da Leoa, Mia Couto 

  3. Prosa afro-brasileira contemporânea: Ponciá Vicêncio (2013), de Conceição Evaristo (1946-).

  4. Romance nigeriano da minha deusa: Americanah (2013), de Chimamanda Adichie (1977).

  5. Mais clássico do que isso, impossível: Dom Casmuro (1899), Machado de Assis (1839-1908).

  6. Melhor ficção pra se entender gênero: Orlando (1928), da inglesa Virginia Woolf (1822-1941).

  7. Prosa épica sobre a escravidão no Brasil: Um defeito de cor (2006), de Ana Maria Gonçalves (1970).

  8. Sonetos da freira mexicana Sor Inés de la Cruz (1648-1695). 

4. Não se assuste: Um pouco de teoria não faz mal a ninguém!

Amiga, calma.  Como diz o samba: “devagarinho e que a gente chega lá.”  Comecemos por onde eu comecei:

  1. O segundo sexo (1949), de Simone de Beauvoir (1908-1986)

OBS: Leitura fascinante, mas pode ser bem cansativa para quem não tem treinamento com longas leituras teóricas. Se você e assim (o que tá tudo bem), eu recomendo que pelo menos você pesquise vídeos, blogs, artigos científicos que te expliquem as ideias do livro. A teoria dela vai fazer você olhar pra si mesma de forma diferente, além de tirar um pouco das muitas culpas que as mulheres carregam. Antes desse livro, eu achava que sabia o que era ser mulher; depois, entendi que quem cria esse sentido sou eu a partir de um diálogo intenso comigo mesma e com a sociedade.

2. Um teto todo seu, ensaio de fácil leitura de Virginia Woolf (1822-1941).

3. Professions for Women, 1931, discurso de Virginia Wolf sobre a necessidade de matarmos nosso “anjo do lar” - já matou o seu?

4. Qualquer livro da bell hooks (1952). 

5. Duas autoras portuguesas negras contemporâneas: Grada Kilomba (1968) e Djaimilia Pereira de Almeida (1982-).

6. Feministas negras brasileiras: Sueli Carneiro (1950-), Djamila Ribeiro (1980-), Lélia Gonzalez (1935-1994).

5. Facilitando a teoria pelo YouTube

Por fim, alguns canais que podem te ajudar a navegar por teoria:

  1. Tempero Drag: https://www.youtube.com/c/TemperoDrag/videos

  2. Casa do saber: https://www.youtube.com/user/casadosaber

  3. Prazer, Karnal: https://www.youtube.com/channel/UC4O2eKb8vI4VlMeNp90asfg

  4. Maria Homem: https://www.youtube.com/channel/UCeT74ntD25ACU_fVfUWZzsg

  5. Superleituras: https://www.youtube.com/user/canalsuperacademicos

  6. “A mulher na história”, palestra do Leandro Karnal: https://www.youtube.com/watch?v=--V2VKvlSz0

Ai, amiga....  Espero não ter te cansado. 

Sua pergunta foi tão boa, tão relevante e tão positiva que eu não podia responder com um simples texto de WhatsApp. 

Ocultei seu nome pra não te expor. Mas você sabe que continua sendo minha luz, apesar desse pequeno apagamento. 

Saudade de você, da sua família, do seu país, das nossas conversas. 

E, por favor, continue perguntando. As respostas, em geral, sempre chegam...ainda parciais que com meses de atraso como a minha. 

Um beijo, um abraço, um cheiro,  Laís. 




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