Pra Machado de Assis – Na maresias cariocas, RJ, Brasil

Atualizado: 2 de Jul de 2020



Querido Machado,

Primeiro, me desculpe não ter escrito antes

Aqui, na pós graduação, meus professores dizem que eu preciso parar de ficar me justificando tanto, porque isso só revela falta de confiança. Mas com você é diferente, né? Você sabe que a gente tem esse negócio de usar clichês de namorados e um português em próclise cheio de queísmos, mas isso não significa que eu não te respeite. E respeito, você bem sabe, pede cortesia.


Ah, depois te conto os motivos do meu atraso... agora é melhor deixar as pitangas pra outro momento, já que está bem tarde aqui e eu não aguento mais segurar minha mão pra não te escrever.

Segundo, parabéns pelo sucesso nos Estados Unidos com o Brás Cubas!!! Eu não vou dizer que fiquei surpresa, não. Se bem que acho que você deu um pouquinho de sorte. Imgine bem: quando a Flora começou a te traduzir, nem ela nem a editora podiam prever que Brasil e Estados Unidos, em meio a uma pandemia, enfrentariam uma onda de racismo tão explícito, violento e letal.

De um lado vem você com seu jeitinho

Hábil hábil, hábil.. e pronto!

Me conquista com seu dom

(Capitu, Luiz Tatit)


Não tem sido fácil, meu bruxinho do cosme velho. Não tem sido fácil pra ninguém com um pingo de humanidade. Acho que pra você, cuja fisicalidade já se evaporou e só regressa em forma de chuva, deve ser bem frustrante, né? Deve ser horrível não poder escrever sua angústia e revolta com tudo isso.


Olha, quando te der uma daquelas crises de pânico porque não pode falar, por que você não vem em forma de trovão, pegando uma carona com Iansã? Se não souber como encontá-la, é só soltar a garganta com uma das músicas da Maria Bethânia. E se vale de consolo, seu Brás Cubas tá ressuscitando de novo... e tá todo mundo puto da vida com ele. É, querido, sua voz ainda anda pujante por aqui.

nem todas as crianças vingam


Por falar nos seus textos, tenho uma novidade! Lembra da Tina? Aquela minha amiga super jovem que me dá conselhos melhor do que muito idoso? Sim, ela... minha professora de Belly Dance. A gente começou a fazer algo muito legal: ela corrige meus textos em inglês e eu lhe ensino português por meio de conversas literárias. Tem sido fenomenal. E advinha o que estudamos hoje? Não, não foi o Dom Casmurro.


Conversamos sobre “Sabina” e “Pai contra mãe” e... uau! Como é que você consegue ser tão.. tão.. tão assim, Machado? Hoje foi a primeira vez da Tina com esses dois textos. Eu, como você bem sabe, já os li algumas tantas vezes e continuo a ficar de queixo caído.

A primeira vez que li “pai contra mãe” eu tava na UnB, na aula de Teoria Literária com a Virgínia. Era meu primeiro semestre oficialmente longe do jornalismo... acho que tinha acabado de me casar também. Nossa, como eu era ignorante. Naquela época eu nem sabia que você escrevia contos, acredita?


Agora mesmo me lembro da sensação de ler aqueles primeiros dois parágrafos e o final. Eu não conseguia entender absolutamente nada, mas entendia que você tava dizendo algo muito importante ali. E a aula não me ajudou muito, não... a culpa não era da Vigínia, não, imagina. A culpa não era de ninguém, eu só não era uma leitora experiente.

(Ah, um parêntese aqui: meu irmão disse que pra eu diminuir meu nível de i

ngenuidade, eu precisaria te ler mais. Tadinho, ele acha que eu consigo pegar suas ironias assim, nas primeiras leituras, sem conversar com ninguém! Deve ser mais um desses complexos de irmão mais novo que Freud explica – que o Polidoro não me leia aqui... bom, esse é um dos riscos de uma carta aberta, não? Ainda bem que tenho terapia amanhã cedinho. Já tô pra ficar louca, meu amigo.)

Voltando.

Você precisava ter visto a cara da Tina quando ela começou a falar do conto. Obviamente ela precisou começar pelo final: “nem todas as crianças vingam,” ela repetia sem parar. “Lara, isso não tem como ser verdade. A filha do Cândido, mesmo sendo abandonada pra adoção, tinha diante de si duas opções de vida. Enquanto o filho da escrava, Erminda, não. O filho da escrava tinha diante de si a morte ou a escravidão” / “Que é outra forma de morte, não é, Tina?” Será que você foi determinista ou realista, Machado? Agora fiquei na dúvida... será que dá pra me responder antes da minha qualificação de mestrado em Abril?

Você foi tão gráfico naquele conto, Machado. Doeu reler, especialmente por causa do contexto de violência contra vidas negras que estamos enfrentando.

Tia Mônica, ouvida a explicação, perdoou a volta do pequeno, uma vez que trazia os cem mil-réis. Disse, é verdade, algumas palavras duras contra a escrava, por causa do aborto, além da fuga

(essa Tia Mónica me causa náuseas...)


Lendo o poema e o conto, nessa ordem, criei uma teoria: Sabina desistiu de se matar porque “vence(u) o instinto de mãe.” Já que agora viveria para o filho que antes mataria para que não sofresse, ela resolveu fugir e mudou até de nome, Arminda. Foi capturada por um senhor de escravos, fugiu e o Candido Neves a encontrou e deu no que deu... Tá, acho que forcei um pouco a barra aqui, não? Ah, Machado... as vezes queria que você tivesse sido mais prolixo sobre a questão racial, mas não vou entrar nesse mérito agora. O Assis Duarte, lá na UFMG, tá tentando arduamente te decifrar.

Ai querido, já estou me aproximando dos mil caracteres e sinto que mais chovi no molhado do que tudo. Fazer o que, né? Ser amiga e fã de alguém é too much!!!!

Tanta coisa agridoce tem acontecido na minha vida, Machado. Não tá fácil, mas tá cada dia mais lindo. No entanto, confesso que os últimos dois versos do seu poema me cortaram o peito. Você me deixou com a sensação de que amanhã vai ser outro dia de injustiça, violência e tristeza. E, até certo ponto, vai ser mesmo. Brasil e Bolsonaro tão aí pra não me deixar mentir – e isso não é viés de confirmação. Pensando bem, quem sabe a volta do Brás Cubas não abre a mente de uns opressores por aí e a gente tenta a falar sobre esperança, como tanto defendeu o Frederick Douglass naquele discurso sensacional sobre o 4 de julho?


E ouviu-lhe o vento os trêmulos suspiros; Nenhum deles, contudo, o disse à aurora.

(versos finais de "Sabina")


Ah, só mais uma coisa. Falei com a Mazinha ontem por telefone e ela me lembrou que em uma de suas crônicas, não me lembro em quais, você anunciava que a “revolução negra estava chegando” - Axé!


Até a próxima, meu bruxinho.

Obrigada por me acompanhar há tantos anos,

Bloomington, IN, USA

P.s.: Nunca te perguntei: você gosta da música do Luiz Tatit, Capitu?




Machado de Assis bombando nos Estados Unidos
Meu, teu, seu, nosso Machadinho

.......


Eu: Tina, por que o casal queria tanto que o sexo do bebe fosse um menino?

Tina: Porque menina custa mais caro!

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