Pra que tanta violência, Chiziane? Comentário sobre “Ventos do Apocalipse”



Se você quer suspense e visões proféticas sobre o fim do mundo, não perca a leitura do último livro da Bíblia, o Apocalipse. Você vai se deparar com profecias de cavaleiros, com palavrões tipo Armagedom e uma numerologia misteriosa – quem nunca temeu o 666? Mas se você quer algo mais contemporâneo, tenho certeza que vai encontrar uma lista enorme filmes, livros e sermões com Apocalipse no título.


Por motivos que não explorarei neste texto, sempre fugi de qualquer produção artística que explora o misticismo bíblico. Até que no semestre passado, pra meu seminário de literatura africana em português, precisei o livro da moçambicana Paulina Chiziane – Ventos do apocalipse, 1991.


Comecei a leitura com vários preconceitos, afinal já que julgava o livro pelo título. Mesmo assim, mantive uma postura de reverência pela obra desde o início, afinal eu sabia que tinha algo raro em minhas mãos: além de ser uma ficção em português, minha língua materna, era de uma mulher negra nascida um país africano recém independente de Portugal e profundamente afetado por guerras civis.

Ainda bem que atravessei o incômodo inicial da capa.


Não tenho medo da morte Mas sim medo de morrer Qual seria a diferença Você há de perguntar É que a morte já é depois Que eu deixar de respirar

Morrer ainda é aqui Na vida, no Sol, no ar Ainda pode haver dor Ou vontade de mijar

Gilberto Gil,

“Não tenho medo da morte”


Há muitos aspectos interessantes na obra, como a circularidade temporal, as tradições locais e a importância da oralidade na cultura moçambicana. No entanto, escolhi escrever um breve comentário sobre um dos episódios que mais me balançou: o drama de Emelina (pp.180-186).


O episódio é tão rico em referências, abrindo tantas possibilidades de interpretação, que decidi me concentrar apenas no absurdo do núcleo narrativo dessa personagem. Tento minimamente responder: o que o trauma dessa mulher (que o narrador enfatiza não ser um trauma de guerra) faz dentro dessa narrativa? A que propósito serve, além de chocar quem lê?


O trecho do livro que nos introduz à história dessa mulher é de leitura densa. Isso porque Chiziane faz um duplo uso de metáforas sequenciadas, profecias misteriosas e uma história que até um psiquiatra teria dificuldades para digerir. Metade do relato é uma anunciação de algo terrível, mas nada do que o narrador diga nos prepara para o desenlace da história.


Essa preparação narrativa é um intento de criar em nós, leitores-ouvintes da história de Emelina, uma empatia com essa mulher vista como “louca”, que peregrina sozinha com um bebê de colo, depois de ter sido sequestrada por um grupo de guerrilha quando ainda estava grávida. Depois de muito silêncio e hesitação, Emelina finalmente sente-se segura ao lado de uma enfermeira que, como ela, é mulher e negra (182). Ao receber dessa mulher uma oferta de escuta, Emelina em toda sua “sede de afeto, de consolo, de uma voz amiga, de um confessor”, finalmente rompe silêncio e a “voz cansada vem das profundezas da alma num suave delírio” (182), desabafando.



Chiziae e livors


Em resumo, Emelina aproveita um “ataque na aldeia, mas um daqueles ataquezinhos sem nenhuma importância, mas suficientemente importante para pôr em prática o plano macabro” de livrar-se dos filhos para poder viver com o amante. Assim, “na hora do ataque colocou os três filhos na palhota e incendiou-os. E depois começou a gritar para que a vizinha acudisse mas só depois de ter a certeza de que os filhos estavam bem mortos” (185).


O amante, que tinha um casamento polígono, aproximou-se cada vez mais de Emelina, na tentativa de suprir-lhe os amores acidentalmente perdidos. Até que decide se afastar quando Emelina lhe pede que mate suas duas esposas para ficar apenas com ela. Depois disso, Emelina sofre intensamente. Sofre pela perda dos amores, do crime, do primeiro marido, da violência de estar grávida e ser capturada. Os sofrimentos e traumas são infindáveis.


Meu primeiro instinto foi querer entender o crime de Emelina como uma reação normal de pessoas traumatizadas pela guerra. Como explica o doutor Van der Kolk, em The Body Keeps the Score, pessoas que vivem em campos de guerra fazem o inimaginável. Por exemplo, ele cita em seu livro a história de um veterano de guerra que perdeu seu companheiro mais próximo sobre um soldado.


Após o trauma de ter o amigo morto em seus braços, ele ficou furioso. Descontrolou-se tanto que acabou entrando em um ataque de pânico, invadindo uma aldeia, matando uma criança e um fazendeiro, além violentar sexualmente uma mulher. Quando voltou da guerra, não conseguia olhar para sua esposa e seus filhos obviamente. Era impossível para ele conciliar ver e amar sua família e ao mesmo tempo em se se lembrava e, portanto, revivia o que havia feito. A análise que Kolk faz desse caso me fez lembrar do estado de Emelina. O doctor diz:



Deep down many traumatized people are even more haunted by the shame they feel about what they themselves did or did not under the circumstances. They despise themselves for how terrified, dependent, excited, or engaged the felt. … the result can be confusion about whether one was a victim or a willing participant, which in turn leads to bewilderment about the difference between love and terror pain and pleasure (13, 14)

O problema de inserir essa análise dentro do contexto do livro, no entanto, é que o narrador enfatiza que a vilania de Emelina nada tem a ver com a guerra. Mas aí vem a pergunta de quem está bem acostumada a ler Machado de Assis: podemos confiar nesse narrador? Talvez, afinal ele mesmo também está traumatizado com a guerra a ponto de cotidianizar um ataque de guerrilha ao dizer que o acontecido na vila foi daqueles “ataquezinhos sem nenhuma importância” (185). Supondo que Emelina fez o que fez por paixão, loucura ou psicopatia, por que colocar mais violência em um livro que desde o título solta sangue?


Talvez para mostrar que mesmo em situações de guerra há violências que existem apenas porque há humanos? Ou seja, independente da guerra, humanos são humanos? Até mesmo na África, arquétipo de mãe, há mães insanas? De forma que africanos também são gente como a gente, como nossos vizinhos criminosos da manchete de jornal? Outra possibilidade é que esse relato signifique uma profecia, que seja um dos ventos do Apocalipse, afinal, como profetizou Jesus sobre o fim do mundo, em Mateus 24:6-8:



E ouvireis de guerras e de rumores de guerras; olhai, não vos assusteis, porque é mister que isso tudo aconteça, mas ainda não é o fim. Porquanto se levantará nação contra nação, e reino contra reino, e haverá fomes, e pestes, e terremotos, em vários lugares. Mas todas estas coisas são o princípio de dores.

Se assim for, a escolha de Chiziane é uma forma de criar no texto uma brisa de morte anunciada, como já fazia Márquez e Kafka. Assim, Chiziane faz jus ao título, soprando na narrativa esse vento que nada refresca, pois é apocalíptico.



Trabalhos citados

BÍBLIA, N.T. Mateus. In BÍBLIA. Português. Bíblia João Ferreira de Almeida Atualizada. Disponível em <atualizada/genesis/>.


Chiziane, Paulina. Ventos Do Apocalipse. Maputo: Edição da Autora, 1993.


Van der Kolk, Bessel A. The Body Keeps the Score: Brain, Mind, and Body In the Healing of Trauma. New York, New York: Viking, 2014.

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